sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

O Côrno e o Código de Honra

Esse caso verdadeiro ocorreu recentemente numa cidade do Baixo Sul da Bahia, região conhecida como Costa do Dendê e os seus protagonistas foram o japonês Hasunda Nishimura, sua esposa Dorotéia Laranjeira e Genésio Ramos.

Nishimura era um nissei, nascido em São Paulo, vivia entre os colonos que ali se fixaram para trabalhar na agropecuária. Tinha cerca de quarenta anos de idade, era forte, atlético, transferiu-se logo cedo para a capital paulista, onde cursou fisioterapia, aluno destacado. Como bom nissei, tornou-se professor de karatê, taikendo e artes marciais, atividades que garantia, confortavelmente, a sua sobrevivência financeira.

Aventureiro, foi morar na cidade de Belém, no estado do Pará, num lugarejo bem próximo, reduto de uma grande colônia de japoneses que viviam do cultivo da pimenta do reino, que pelo volume de produção e exportação, tornara-se o Eldorado daqueles imigrantes. Instalado há mais de dois anos na região, apaixonou-se por Dorotéia Laranjeira, uma paraense de média altura, tipo indígena, rosto arredondado, cabelos pretos, de pele morena, dentes alvos, olhos grandes, enigmáticos, que chamavam a atenção como quem desejasse transmitir poder e sedução.

Em pouco tempo estavam casados, o paciente nissei, pela sua própria índole, era calmo, dedicado a academia que montara, cultivava os segredos do corpo. Dorotéia, ao contrário, era expansiva, comunicativa, fogosa, dominadora, catedrática na sacanagem, já havia transado com meia dúzia de colonos. Elogiada pelas variadas fantasias que fazia na cama, era uma mulher quente, insaciável, segundo os entendidos, estimulada pelo calor da linha do equador que despertava a sua libido nas relações sexuais. Bem, com uma mulher desse tipo não se brinca, não adianta considerar-se machão, bom de cama, essas baboseiras que os tolos costumam elogiar-se. E, como era previsto, o Nishimura tornou-se um grande côrno, daqueles conformados, era voz corrente na colônia, a tal ponto que ele resolveu morar numa cidade no sul da Bahia, onde também havia um aglomerado de japoneses plantando seringueiras e cacaueiros.

Instalou-se na nova cidade, tornou-se conhecido, prestigiado, a sua academia era a mais freqüentada, não havia doenças de colunas, dores musculares e espinhelas caídas que o fisioterapeuta Nishimura não consertasse. Enquanto o nissei trabalhava dia e noite, Dorotéia voltou a dar as suas puladas de muro, passou a transar com Genésio Ramos, por quem se dizia apaixonada. O Genésio era um rapaz de trinta e cinco anos, branco, cabelos pretos, de média altura, era um sujeito feio e magro. Mas todos sabem, quando a mulher quer dar e gosta de alguém, não adianta saber se o sujeito é artista de TV ou o cachaceiro malandro do botequim perto de sua casa. Aí o fumo entra prá valer, salve-se quem puder!

E foi isso que aconteceu com Genésio e Dorotéia, a fogosa paraense, envolvidos numa paixão amorosa incontrolável, a tal ponto do romance tornar-se público, e Nishimura ao passar pelas ruas as pessoas apontavam para ele: - Lá vai o côrno japonês!

Como diz o ditado popular: “Araruta tem seu dia de mingau”, assim, o romance entre os dois chegou ao conhecimento de Nishimura, confirmando a máxima de que o côrno sempre é o último a saber. Nishimura, apesar do temperamento calmo, ficou enfurecido e procurou a Dorotéia e lhe disse:

- Já soube de tudo Dorotéia, você voltou a me trair com o magricela do Genésio. Você não tem jeito, se não bastasse o que você me aprontou em Belém, agora você descumpriu a sua promessa e continua a me cornear. Sou apaixonado por você, mas estou no limite do desespero, não sei se lhe mate ou ao seu amante!

- O que é isso, Nishimura, você está ficando louco? Será que você continua a escutar fofocas dessa gente desocupada? Você está faltando com o respeito com a sua dedicada esposa, isso é uma injúria. E concluiu: - Se você não me quer mais, amanhã mesmo volto para Belém do Pará, só quero mesmo as passagens. Vou para a casa dos meus pais.

Nishimura recuou, foi longe demais nas ofensas a Dorotéia, ajoelhou-se, pediu-lhe perdão, e retirando-se, ameaçou: - Onde eu encontrar esse Genésio vou aplicar-lhe uma surra exemplar.

Dorotéia ficou muito preocupada e aproveitando a ausência de Nishimura, mandou chamar a Genésio e o preveniu:

- Tome muito cuidado, meu amor, o Nishimura sabe das nossas transas, está furioso e o ameaçou, dizendo que lhe daria uma surra para deixa-lo todo quebrado.

- Está louco? Indagou apreensivo Genésio. E agora que devo fazer? Seu marido Nishimua é campeão de tantas lutas, estou fudido! Prá que eu fui me meter nessa arapuca?

- Calma, calma, Genésio, disse Dorotéia, segura da sua experiência de traidora.

- Calma o que?! Estou lascado, vou me picar dessa cidade, senão ele me mata,

- Nada disso, Genésio. Tenha paciência, meu amor. Vou lhe ensinar o que você deve fazer.

- O que devo fazer, Doroteia, é correr pelo mato assim que avistar o Nishimua.

Dorotéia deu uma boa risada com o medo de Genésio e repetiu: - Por favor, deixe eu lhe explicar como você deve se defender. É tudo muito fácil.

- Se for assim, meu amor, fale logo, fale logo, estou com medo, declarou Genésio.

- Pois bem, assim que o Nishimura partir para cima de você com ameaça de agredi-lo, você fique imóvel e cruze os braços.

- Tá louca!!! disse Genésio. E repetiu: você está é louca, o Nishimura vai me matar no primeiro golpe de karatê!

Dorotéia voltou a sorrir e afirmou com a experiência de muitas traições, tranquilizando-o: - Assim que você cruzar os braços, ele não vai lhe agredir. Nishimura o que mais respeita, é o seu código de honra que diz claramente: É proibido bater num homem desarmado, é uma desonra para o lutador, ele pode ser preso e perde tudo na vida! E a posição do homem desarmado é cruzar os braços.

- Olhe esse diabo de conselho, Dorotéia. Se esse negócio não funcionar, quem vai lhe matar sou eu.

- Deixe de bobagem, Genésio, faça o que lhe digo e vamos continuar a nossa vida amorosa.

Passados alguns dias, eis que Genésio estava despreocupado nas proximidades da feira quando o Nishimura veio correndo em sua direção e ele mal teve tempo para perfilar-se e cruzar os braços. Nishimura parou esbaforido, bem próximo de Genésio e foi logo falando alto: - Descruza braço, Homi !

- Prá quê? estou bem assim, respondeu Genésio, tremulo.

- É que japonês que falar com você...

- Então fale, então fale, respondeu Genésio.

- Mas descruza braço, homi, repetiu o Nishimura. Japonês quer falar como você homi, mas descruza braço!

Genésio tomou coragem, viu que Dorotéia tinha razão, Nishimura tremia de raiva, com o olhar esbugalhado para ele, quando Genésio gritou bem alto:

- Já disse japonês, não tenho nada prá falar com você!

Logo a aglomeração foi formada, o Nishimura se retirou calado, para a tranqüilidade de Genésio. Daquela data em diante, Genésio continuou comendo a Dorotéia sabendo que, até na cama, cruzava os braços.

Nunca imaginei que o juramento sobre Código de Honra de lutadores de artes marciais fosse um remédio tão eficiente para amansar cornos! (J. Lacoli)

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