A praga do Urubu
Essa história de superstição é algo que impressiona pela força que exerce sobre as pessoas, das mais ignorantes até os doutores mais esclarecidos, quer sejam pretos, bancos, cafuzos, ricos ou pobres.
Trata-se de uma força estranha, violenta, dominadora, que inibe a mente das pessoas, condicionando-as, temerosas de eventuais males, a procederem sob a expectativa das boas realizações de negócios, viagens, festas e amores.
Mas o que aconteceu com o agricultor Laudelino Ingazeira da Mata, mas conhecido como seu Lau, vítima da praga do urubu, foi algo assustador e engraçado.
Seu Lau nasceu à margem do Rio Tocantins, numa cidade bem distante da civilização, criou-se perto de uma aldeia indígena. Menino pobre, o pai era casado, tinha dois filhos, trabalhava como agricultor empregado numa propriedade de um grande pecuarista de Goiânia.
Distinguia-se Lau pela pele alva, cabelos pretos, era magro, na época tinha doze anos, estudava na escola da Funai, junto com outras crianças indígenas.
Antes da mudança da família para a cidade de Acreuna, em Goiás, o menino Lau desentendeu-se na escola com outro menor da tribo a quem o esmurrou. Briga de escolares, mas que rendeu ao pequeno Lau a primeira praga da filha querida do cacique Aymar: Tomara que o urubu cabeça vermelha fure seu olho esquerdo....
Retornando a sua casa Lau, contou temeroso a sua mãe da praga que recebera e ela para tranqüilizá-lo lhe disse: Esqueça isso meu filho, não acredite nessas superstições. Depois praga de urubu magro não pega em urubu gordo.
- É mamãe, mas a mãe dele é gorda e magro sou eu, então é o inverso do que a senhora está me dizendo. Esqueça isso, Lau, voltou a repetir a dona Maria, prá semana vamos para Goiás e lá começaremos outra vida longe desses selvagens.
De fato, chegaram a Acreuna, seu Manoel foi trabalhar na fazenda do pecuarista Deodato, enquanto a família ficou perto da cidade onde Lau e a seu irmão completavam o curso do segundo grau.
Ao completar vinte anos Lau casou com Mariazinha, cujo pai também trabalhava na mesma propriedade de Manoel. A jovem era boa dona de casa, mas logo apareceu grávida e o casamento foi antecipado.
Querendo ser independente, após o nascimento do seu filho, Lau e Mariazinha foram morar em Palmeiras de Goiás, a convite do tio da sua mulher, que lhe emprestou um casebre na periferia da cidade.
Dinheiro escasso no bolso, fruto da ajuda dos parentes, Lau gastou a sola dos sapatos a procura de trabalho como servente ou agricultor. As portas estavam sempre fechadas, nada de emprego. Quase desesperado, apelou ao Prefeito da cidade que o recomendou a procurar o senhor Joaquim responsável pela limpeza da cidade, o que o fez no dia seguinte.
- Ah, senhor Lau, disse-lhe Joaquim, o senhor prefeito me telefonou para lhe arranjar um trabalho, você é jovem, disposto, vem da agricultura, temos um serviço ideal para você.
- Obrigado, senhor Joaquim. Preciso muito trabalhar, tenho mulher e filho pequeno para criar. Naquela mesma manhã, Joaquim o conduziu ao posto de serviço para lhe apresentar ao novo chefe, num pequeno galpão improvisado, onde funcionava o lixão da cidade, seu novo posto de trabalho.
Ao saltar e antes mesmo da apresentação, Lau teve um choque e lembrou-se da praga da filha do cacique. Olhou em volta, emudeceu, viu uma nuvem de urubus da cabeça preta, popularmente conhecido como urubu bomga, rondando o lixão, confundindo-se na disputa encarniçada entre os trabalhadores maltrapilhos, pois avançavam sobre os operários arrebatando a comida.
- Este é o senhor Lau, Zé das Tripas, será o novo contratado, recomendado pelo nosso prefeito.
- Seja bem vindo seu Lau. O senhor veio disposto da começar a trabalhar hoje ou amanhã?
- É melhor amanhã, disse Joaquim. Vou levá-lo para preencher a ficha, a carteira profissional, entregar-lhe as botas, luvas e uniformes. As outras instruções ele virá à tarde e você Zé das Tripas as transmitirá.
Bem, retornando a sua casa, Lau lembrou-se novamente dos urubus furando os seus olhos, agora era o tal do urubu bonga, de quem nunca ouvira falar. Ali então estava o perigo iminente, era uma nuvem de urubus, não haveria meios de fugir do perigo.
Conversou com a mulher Mariazinha e esta lhe disse: Você está doido de aceitar esse trabalho, Lau? É preferível varrer ruas, fazer biscates na cidade e lavar roupas. Pois é, minha mulher, esses urubus estão me perseguindo.
Lau sumiu de Palmeiras de Goiás logo ao amanhecer, antes que os urubus acordassem e sequer agradeceu ao cunhado pelo emprego na Prefeitura.
Retornou para Acreuna, encontrou trabalho na fazenda de John Pierre, um agrônomo francês radicado há muitos anos em Goiás, pecuarista e plantador de soja.
Infelizmente, após seis meses de trabalho, Lau foi dispensado. Ele deu um prejuízo enorme a seu Pierre, trocando a ração dos animais por inseticida.
Quase que enxotado da propriedade pelo Monsieur John Pierre, este ao dispensá-lo lhe disse aborrecido: Quero que você se foda com uma cagada de urubu fantê ! Além do azar desgraçado, nova praga se abatia sobre ele, a do tal urubu fantê que ele ignorava do que se tratava. Deixou a fazenda as carreiras, estava mesmo condenado a morrer devorado pelos urubus, decidindo então trabalhar na capital de Goiás, longe dos urubus, aceitaria o convite do tio para ser zelador do Edifício Monumental de Goiânia, prédio de alto luxo, onde morava a burguesia, os pecuaristas mais ricos do Estado.
Pois bem, Lau alugou uma casinha num bairro pobre de Goiânia onde passou a viver com a mulher e o filho, deslocando-se diariamente para a Avenida 136, no centro da cidade, onde uniformizado e boa aparência, dentro do padrão do edifício, desempenhava há quatro anos, as suas funções de zelador.
Seu Lau havia esquecido das pragas que lhe jogaram, vivia feliz, até que a síndica do prédio, dona Filomena, mulher do pecuarista mais rico de Goiás e que morava na cobertura de
- Seu Lau, eu vou viajar amanhã para a nossa fazenda no interior e vou confiar-lhe uma tarefa para que a realize na noite de amanhã.
- Pois bem, dona Filomena, estou as suas ordens.
- Era isso que esperava do senhor, que está dispensado de trabalhar no expediente da manhã, mas vir para o nosso apartamento para a seguinte missão.
É que, seu Lau, em nossa cobertura, misteriosamente, apareceu um Urubu Cabeça Vermelha que ronda a cidade de dia e fez um ninho perto da piscina, junto de uma árvore. O miserável aparece no início da noite, vara a madruga, suja tudo, o bicho caga na piscina, no varal, nas mesas e cadeiras, é um inferno, seu Lau.
Consultei um especialista e ele me disse que esse urubu é da espécie da cabeça vermelha e pelada, tem um faro invejável, asas de águia, é três vezes mais rápido do que o urubu bomga, é perigoso, voraz, tem uma fedentina dos diabos, gosta de furar os olhos das vítimas. É o tal do urubu rei, o fantê!
Deixei uma rede, veneno e um rifle para que o senhor o mate. O senhor não se preocupe pelo trabalho, quando voltar seu Lau, o senhor será muito bem remunerado.
Seu Lau escutou as recomendações e as instruções detalhadas da dona Filomena, agora era pegar ou largar.
Dona Filomena viajou cedo e Lau retornou ao lar onde deu as más notícias para sua mulher, indagando: - E agora Mariazinha, novamente os desgraçados dos urubus vem atrapalhar a nossa felicidade.
Que praga miserável, só porque dei uma tapinha naquele indiozinho é sofro tantas perseguições? Veja que situação, minha mulher, você bem sabe que gosto de futebol e deixei até de torcer pelo Flamengo quando vi pela TV que o seu mascote era um urubu!
E agora que faço? Seu Lau não conseguiu dormir naquela noite e também não apareceu para cumprir a missão de dona Filomena. Enfrentar o tal cabeça vermelha era muito arriscado, não queria ser fodido pelo urubu fantê, o bicho era rei, de pescoço comprido de avestruz e voraz feito águia. Jogou a toalha.
E dona Filomena quando retornou, indignada, revoltada, esperou em pé na portaria a chegada do eficiente zelador: - Até o senhor, seu Lau? E foi logo gritando, o senhor está demitido. Ouviu bem, está demitido.
- Muito bem, disse calmamente seu Lau, já esperava a sua decisão, eis aqui a minha carteira profissional para a senhora dar baixa, logo aceita pela síndica que lhe negou os direitos trabalhistas.
Seu Lau voltou rezando para a sua casa, com o coração alegre, sem saber que naquela noite livrara-se da praga dos urubus.
É que seu colega de trabalho, escalado para a missão suicida, errou o tiro acertando na perna de dona Filomena que espiava escondida e ele, depois de lutar na escuridão conseguiu matar o urubu rei, o tal do fantê, mas bicado perdeu o olho esquerdo da praga da filha do cacique Aymar para o seu Lau.
É aquela velha praga de que o urubu de baixo caga na cabeça do de cima! (J. Lacoli)
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