Papai Noel apanhouna ceia de Natal
Essa é uma historia muito engraçada, mas verdadeira, ocorrida na Bahia, numa determinada cidade do interior. O protagonista chamava-se Theodoro Villanueva, um senhor na casa dos cinqüenta e cinco anos, bem simpático, alto, olhos azuis, cabelos grisalhos, super educado, de fala mansa, verdadeiro gentleman. Caso estudasse no Instituto Rio Branco, com certeza seria um diplomata eficiente.
Theodoro era diretor comercial de uma empresa do pólo petroquímico da Bahia, por força das suas funções, viajava freqüentemente por todo o país e até mesmo ao exterior. Profissional de muitos contatos, sua presença e fidalguia chamavam a atenção de todos, era admirado pelas mulheres que viam nele um galã de novela, despertava sonhos e fantasias amorosas.
Mas Theodoro, apesar das experiências de suas viagens, era tímido, não se aventurava as conquistas amorosas. Casado, há mais de vinte anos, com Karla D’Albuquerque, uma loira, bonita, atlética, de cinqüenta anos, descendente de holandeses, tinha quatro filhos homens, o mais velho com treze anos de idade.
Viviam bem, tinham casa própria na praia do farol da Barra, os domingos e feriados eram de festas com a visita dos amigos e companheiros de trabalho.
Mas Karla era de um gênio miserável, irascível. Tinha um ciúme incontrolável, as viagens de Theodoro eram um martírio, dias de sofrimentos.
Será que Theodoro tinha alguma amante, alguma namorada nessas suas andanças? Era o que lhe atormentava toda vez que ia deixá-lo no Aeroporto Dois de Julho de Salvador.
Os anos foram passando, até que Karla começou a verificar que Theodoro mudara de comportamento. Estava mais alegre, a barba e bigode bem aparados, cabelos impecavelmente penteados.
Passou a andar perfumado e, atualizando-se com o modismo, certo dia Theodoro retornou da viagem com uma pulseira de ouro, bem cara, no pulso do relógio.
Karla, indagou-lhe muito desconfiada: - O que é isso Theodoro? Já viu homem velho usar essas coisas? Não gosto desse modismo. Isso é negócio de fresco!
Theodoro assustou-se e logo respondeu: - Não seja ignorante, Karla, foi um presente de aniversário dos meus colegas paulistas. Todos eles usam correntes e até brincos e isso não lhes tira a sua masculinidade.
- É Theodoro, comigo não tem dessas coisas. Logo você vai me aparecer com piercing nas orelhas e no nariz! Quando sairmos juntos, Theodoro, você vai tirar essas porcarias, isso não é coisa de macho.
Theodoro tinha um medo dos diabos de Karla, procurou obedecer-lhe. Tremia só de pensar se Karla viesse a descobrir que a corrente fora um presente de Chistina, sua belíssima namorada, mineira, em estagio de separação do marido, que ele a conhecera há mais de quatro anos, no barzinho do hotel de Manaus, e por quem estava completamente apaixonado.
Christina era uma amante jovem, fogosa, ao longo desse tempo, o acompanhava nas viagens, o amor entre eles crescia impetuosamente, a ponto de Theodoro pensar em separar-se para viver esse novo idílio amoroso.
Todas as evidências, a cada dia mais transparente, aumentavam o ciúme de Karla que procurava descobrir as razões de tantas transformações de Theodoro.
O tempo foi passando, até que as festas natalinas se aproximaram, quando então, tradicionalmente, o casal realizava a ceia do Natal, reunindo todos os filhos e parentes. Era a ocasião em que não faltava o peru assado com farofa, azeitonas, passas, abacaxis, bem como outras frutas da época.
E Karla, mesmo desconfiada, fazia questão de comprar um grande peru, desses vendidos nos supermercados, daqueles que vem com um apito embutido para avisar quando o assado está no ponto. A mesa bem posta, ornamentada, toalhas de linhos, pratos e talheres nos devidos lugares, sem faltar às bolas coloridas e as árvores natalinas.
Tudo pronto, Theodoro, como fazia todos os anos, vestia-se de Papei Noel, com o saco cheio de presentes para as crianças, a pança avançada e os óculos escondendo o rosto, era a figura tradicional que alegrava o ambiente.
Aproximando-se a meia noite, eis que faltou gelo e Karla foi pessoalmente buscar na vizinhança, enquanto Theodoro, imprudentemente, dirigiu-se ao quarto de casal e, sorrateiramente, telefonou para Christina desmanchando-se em votos de feliz natal, de saudade e outras declarações amorosas.
Karla logo retornou e dando por falta do marido, passou a escutar toda a conversa entre os dois, perdeu a cabeça e gritou, assustando a todos:
- O quê é isso, quê safadeza é essa, Theodoro?
Theodoro descontrolou-se. Desligou abruptamente o telefone, retornou ligeiro para a sala, deparando-se com Karla enfurecida que aos gritos o desmoralizava: - Infiel, safado, traidor, mau caráter, não respeita o nossa casa, os nossos filhos e amigos. Bem que eu desconfiava, pode se retirar daqui, seu cafajeste!
Theodoro amofinou-se, ficou pálido, perdeu a voz, ficou indefeso, como todos os valentes flagrados na ilicitude. E Karla, vociferando que nem uma louca, contida pelos filhos, apanhou o peru sobre a mesa e jogou-o na caixa dos peitos de Theodoro. Farofas, passas, amêndoas, azeitonas e outros ingredientes espalharam-se pela roupa do falso Papai-Noel que procurava desvencilhar-se das agressões de Karla.
Num golpe felino, Karla conseguiu arrancar a barba de Noel, os óculos ficaram partidos, o salão ficou coberto dos brinquedos das crianças que choravam gritando: - Calma mamãe, calma mamãe, e ela, empunhando um garfo tridente que seria utilizado no corte do saboroso peru, corria em volta da mesa tentando atingir o marido traidor.
A turma do deixa disso interferiu milagrosamente, Theodoro foi expulso da casa, o rosto todo ensangüentado pelo sopapo que recebera da esposa. A festa acabou, Theodoro com a roupa vermelha, escondia o sangue das agressões, todo rasgado, parecia um mendigo pelas ruas desertas da cidade, o véu da madruga, em silêncio, o cobria de vergonha daquela tragédia natalina.
Nunca imaginei que um dia o bondoso Papai Noel, símbolo da esperança e alegria das crianças pudesse levar uma boa surra.
A esposa Karla, até hoje, se gaba do que fez, desabafando: - Meu falso Papai Noel bem que merecia a surra que lhe dei. Foi merecido o seu presente de Natal que lhe dei para que não abandonasse a maçã de casa e fosse comer a fruta proibida da sua traição.
E tome-lhe pau! (J.Lacoli)
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