O xixi do cachorro da Rainha
Tudo acontece num país subdesenvolvido, a exemplo do nosso Brasil, como ocorreu há alguns anos, em certo aeroporto de um estado nordestino, quando da escala da aeronave real, procedente da Europa, com destino a certo país do cone Sul. Por motivo de segurança, o Boeing que transportava o casal real pousou, no horário britânico, às quatorze horas, taxiando a seguir em direção à base militar destinada as autoridades encarregadas da recepção.
Aeronave imponente brilhava sob o sol de verão escaldante do nordeste, via-se na fuselagem do avião, em realce colorido, em alto relevo o brasão da coroa, símbolo da família real.
Bem, era possível imaginar o conforto interno da aeronave, de configuração artística, quadros de pintores famosos; cortinas tecidas a fio de ouro, espaçosas poltronas em coro alemão, divisória com aposentos e salas reservadas ao monarca.
Na ala ao fundo da aeronave, no mesmo estilo de esmerado bom gosto, era o espaço reservado a comitiva encarregada de assistir ao casal real, os graduados funcionários do governo e os membros de sua segurança pessoal.
Nessa expectativa, ao parar as turbinas do gigantesco avião, em pouco tem abriu-se a porta dianteira, os comandantes vestidos a caráter, perfilados para a descida das autoridades.
Na área reservada aos cumprimentos ao casal real, ficaram à espera o cônsul e senhora, o prefeito da cidade, representantes do governador, secretários de turismo, empresários e agentes de segurança por toda a parte.
Surpreendentemente, desceu primeiro do avião o adido de militar encarregado pela segurança real e a seguir a Rainha Soraia, que com o auxílio do seu ajudante de ordem, trazia a tira cola o seu cachorro de estimação, de olhos azuis e pêlo castanho, carinhosamente, apelidado de “El Conquistador”.
Os visitados curvaram-se para os cumprimentos da Rainha, quando então ela declarou, apertando as mãos dos que estavam na fila:
- Boa tarde, desculpe-nos pelo fato de que o Rei Dom Ramon não poder desembarcar. Ele está muito cansado, acordou bem cedo e está dormindo. Desembarquei com “El Conquistador”, porque ele estava muito agitado, estressado da viagem. Ele precisava fazer xixi e cocô. Foi um choque a sinceridade das palavras da sua majestade.
E enquanto a rainha passava em revista, “El Conquistador”, indócil, aproveitava para farejar os presentes, balançando a cauda como se estivesse fazendo o reconhecimento dos seus súditos.
De repente, diante de um oficial perfilado, levantou a pata esquerda e começou a mijar sobre o seu reluzente sapato preto. O oficial deu um salto para trás e a rainha logo repreendeu a “El Conquistador”:
- O que é isso, meu cachorrinho? Que falta de educação? Peça desculpa ao oficial.
- Oh, me Madre, eu estou prestigiando-o com a minha mijada. E então, não contente com o seu ato, tornou a falar:
-Ah, Me Madre estou aborrecido, irritado e, a seguir rodopiando pelo gramado, encostando-se no coqueiro, para terminar de mijar e de fazer cocô, gruindo a seguir: Esse coqueiro agora está adubado e batizado e deverá produzir água de coco real, para matar a sede deste povo.
Algumas autoridades presentes sorriram, mas outras ficaram horrorizadas e indignadas com a desatenção da Rainha. Descer da aeronave apenas para que o seu cachorrinho fizesse xixi e cagasse em solo brasileiro, foi uma grande afronta e falta de respeito.
Será que dentro daquele confortável avião real não teria utensílios para o seu animal fazer as suas necessidades?
Além disso, nos trinta minutos que ficaram no solo enquanto cumpria a escala técnica e abastecimento, o “El Conquistador” foi bastante atrevido e, estimulado a pedir desculpas aos presentes, saiu abanando a sua calda nas pernas das autoridades, mas novamente ao se deparar com o adido militar brasileiro, avançou ferozmente e latindo para mordê-lo:
- Não gosto desse militar, ele não se curvou, não me fez continência, e não está uniformizado como a guarda real.
- O que é isso, El Conquistador? Que desacato, tenha respeito com as pessoas amigas. Vá comer alguma coisa, tomar um sorvete de mangaba e suco de pitanga, acalme-se, acalme-se, meu cachorrinho, disse a rainha.
- Não, não quero nada disso minha Madre, quero subir no avião, vamos embora, o rei Dom Ramon está chamando.
Depois, me Madre, estou muito zangado, ouvir falar tanto em turismo sexual e eles não me ofereceram sequer uma cachorra vira lata, noviça, virgem, para me acalmar, descarregar as minhas emoções represadas, afogar o meu ganso.
A Rainha Soraia ficou desapontada com o seu cachorrinho, por isso o avião real partiu imediatamente para o Cone Sul, ficando, porém a triste lembrança desse fato lamentável.
O xixi de “El Conquistador”, o cachorro da Rainha, é o exemplo mais evidente de que este é um país de merda... (J.Lacoli)
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