O falso Lorde, o Cheque e o Abacaxi
Esse caso ninguém me contou, eu mesmo assisti de corpo presente, num dia de sábado, há mais de vinte anos, quando fui fazer compras num dos supermercados da cidade. Naquela época, antes de ir à praia, era comum entrar no supermercado para comprar refrigerantes, chocolates e lanches para a criançada. Era aquela bagunça, as crianças falando alto, impacientes dentro do carro, esperando o meu retorno.
E, como não poderia deixar de ser, até nos dias atuais, a instituição das filas nos caixas tornou-se uma constante nacional. É fila para tudo: Fila sofrida dos aposentados, durante todo o mês, a chamada fila do INPS; filas de ônibus, filas de cambistas, filas dos cinemas, dos teatros, filas dos aeroportos, dos metrôs, fila dos hospitais, filas dos comprimentos, filas dos vestibulares, filas das padarias, dos açougues, filas de carregamentos, filas de tráfego congestionados, filas de bancos e de compras de ingressos. São filas para todos os gostos e desgostos. Haja filas e paciência para enfrentá-las. O chato de tudo isso é que, quando você vai envelhecendo, ao invés de se acostumar, você passa a ter ojeriza, evitando a qualquer custo ter que enfrentá-las.
Pois bem, foi isso que me ocorreu naquela manhã ensolarada. O supermercado estava completamente lotado e, para desafogar as filas, o estabelecimento havia posto a funcionar três caixas para pequenas compras, de maneira que os clientes pudessem ser rapidamente atendidos, sem espera nas filas. Naquela manhã, embarquei numa dessas filas que, de tão extensa, quase atravessava o grande salão do supermercado. Na minha frente, um cidadão de aproximadamente sessenta anos, alto, bem vestido, cabelos grisalhos, bigode bem aparado, parecia um barão falido, pouco acostumado às intermináveis filas onde estávamos. Ele estava bem calmo, tinha aspecto de nobreza, como aparentava roupa de linho, bem ajustada ao corpo, e os sapatos pretos reluzentes. Segurava nas mãos um abacaxi maduro, bem cheiroso.
Ora, como se sabe, a Paraíba era a terra do abacaxi, exportadora de mais de seiscentas mil caixas por ano. E ali estava à minha frente, aquele lorde com o precioso fruto em suas mãos. Imaginei logo que fosse algum desejo, ou dele, cujo aspecto era estanho ao ambiente ou, quem sabe, um desejo da mulher ou da filha em fase de gestação. Era um caso a se pensar, mas isso não era o objetivo desta crônica. O fato era que a longa fila não sai do lugar, não andava, a turma detrás estava inquieta, falava, gesticulava, reclamava da demora no atendimento, parecia um castigo, enquanto as outras filas das grandes compras fluíam com rapidez.
Bem, como estávamos ali há muito tempo, passar ou pular de um fila para outra era falta de educação. O melhor mesmo era esperar, ainda mais pelo fato que o austero cidadão estava a três corpos para ser atendido. Pensei então que, em se tratando da compra de um só abacaxi, o atendimento seria rápida, ainda mais que o preço de tão desejado fruto era de apenas, a custo de hoje, uma moeda de R$ 0,25 centavos. Bem, fiquei momentaneamente aliviado quando o cliente da vez era o lorde do abacaxi e surpreso ao mesmo tempo quando ele indagou da atendente caixa:
- Qual o preço do abacaxi?
- Vinte e cinco centavos, respondeu ela educadamente, acionando a seguir manivela da caixa registradora.
Aí aconteceu o inusitado: o nobre cidadão, com uma pose de barão aposentado, meteu a mão no bolso da jaqueta, sacou de um talão de cheques da melhor procedência, desses cheques especiais que todos os dias vemos nos anúncios das TVs, àquela época deferência bancária somente aos ricos da cidade.
A seguir, pediu emprestada a caneta barata da humilde atendente, apoiou-se entre os corredores e passou a preencher o cheque especial, numa atitude digna de um imbecil bem trajado.
Bem, o vexame foi grande e engraçado. No lugar das reclamações o que se ouvia nas filas era uma tremenda gargalhada, inclusive a minha, pois jamais imaginava encontrar um idiota, com pose britânica, pagar a compra de um abacaxi com cheque especial de vinte e cinco centavos!
Não pensava que depois de tanta demora um abacaxi pudesse nos causar tantos risos e transformar os nossos aborrecimentos em alegrias.
Haja abacaxi! (J.Lacoli)
0 Comentários:
Postar um comentário
Assinar Postar comentários [Atom]
<< Página inicial