quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

E o gato comeu...

Essa frase de que o gato comeu, lembra muito bem da nossa infância, quando brincávamos com os nossos filhos. Abríamos as suas mãos delicadas e percorríamos com os dedos perguntando: - Onde está a carne que deixei aqui? - E as crianças respondiam: o gato comeu. E assim, brincávamos até chegarmos as suas axilas fazendo cócegas e elas sorriam mostrando a sua inocência. Mas nesse caso que vamos contar, apesar de verdadeiro, não houve nada de brincadeira, tudo transcorreu dentro da euforia natalina e da imprevidência pela falta de adoção de algumas medidas preventivas.
Na mansão do empresário Jéferson Andreoli, realizava-se anualmente a Ceia do Natal com a presença dos seus convidados mais ilustres, amigos e amigas, procedentes de todo o pais e até mesmo do exterior.
A grande mansão de dois pavimentos, em terreno de um hectare, localizava-se à beira mar, numa das praias mais lindas do nordeste. Vidros tipo ray-ban, vendo o azul do mar estendendo-se até o horizonte, faziam parte da vista privilegiada do anfitrião, além da grande piscina, harmonicamente encravada em volta do gramado bem cuidado e dos coqueiros distribuídos que ornamentavam a admirável habitação do bem sucedido empresário.
Bem próximo da praia, via-se uma lancha confortável ancorada ao deck e uma grande área de lazer ajardinada e ambientada, com serviço de bar, cozinha, iluminação, som e pista de dança que completavam o bom gosto de Jéferson e sua esposa Amália. Ao fundo, pela via de acesso, estavam as áreas de estacionamento para cem automóveis, os dormitórios dos serviçais e da segurança o que demonstrava a preocupação dos proprietários.
Pois bem, a tradicional ceia natalina de Jéferson e Amália, acompanhada de orquestra famosa, estava sempre repleta de vips, grandes empresários, artistas e outras autoridades, além dos amigos milionários que tinham casas de veraneio naquele aprazível lugar. Por isso, a ceia dos Jefersons, tornou-se o acontecimento mais importante daquele reduto praieiro, elogiava-se o melhor champanhe, wisky, bebidas finas e iguarias só encontradas nos hotéis da mais alta categoria internacional.
Naquela noite de natal, por volta das nove horas da noite, começaram a chegar os ilustres convidados que foram acomodados no grande salão da mansão, aguardando a meia noite quando seriam servidos os bufês preparados pelo chefe francês Pierre, especialmente contratado de Paris para tão importante evento. Do cardápio desejado, constariam, lagostas, camarões, robalos, perus, chesters, salmões, caviar, saladas, molhos especiais de ervas importadas, além de variadas sobremesas, de sabores nunca antes igualados.
Enquanto conversavam ao som do axé music, bebiam e degustavam os saborosos acepipes, mas descuidaram-se os anfitriões e seus seguranças, vigilantes e garçons, que preocupados em atender aos visitantes que chegavam, deixaram desguarnecidas as mesas com todo o bufê em frente do mar. Erro mortal, que estragou a festa dos Jefersons, meus amigos. É que atraídos pelo aroma embriagador do cardápio posto à sua disposição, gatos famintos e enlouquecidos, surgiram na beira da praia e nos terrenos da vizinhança, um arrastão de felinos de todas as espécies, comandados pelo seu líder “El Salteador da Beira-Mar”, o Malhado, O Ladrão da Noite, El Vingador e sua prole descendente, eram mais de cem, que atacaram furiosamente o banquete. Disputavam a dentadas e tapas, os chesters e perus com as garras afiadas, comendo, brigando e espalhando comidas, quebrando copos de cristais, bebidas importadas, e fugindo juntos por todos os lados.
Afugentados pelos seguranças e pelos garçons, o empresário Jéferson presenciou estupefato o desmanche da sua festa, comidas espalhadas por toda a parte. Hipertenso, Jéferson foi socorrido por médicos convidados, recuperou-se, mas a festa acabou melancolicamente.
Sem dormir, Jéferson e Amália deram uma de exterminador, preparando o contra-ataque naquela mesma madrugada, convocando um açougueiro amigo e um peixeiro, a quem ordenou que matassem todos os gatos que encontrassem na vizinhança, sob a promessa de pagamento de cinqüenta reais por cabeça, mas mediante a contraprova da sumária execução.
Ao acordar por volta das dez horas da manhã, Jéferson supreendeu-se com a fila indiana postada junto ao portão de sua casa, eram mais de 150 homens, mulheres e adolescentes, pessoas humildes que segurando cabeças, caldas, patas e pés dos gatos, recebiam a remuneração pelo justo serviço contratado. Não escaparam da ordem do empresário, sequer os gatos persas, himalaios, angorás, bugal e siameses de estimação, raças exóticas, criados sob conforto das madames endinheiradas, razão pela qual a revolta foi imediata, telefonemas para a Associação da Proteção dos Animais, para o Meio Ambiente em Brasília, denunciavam o extermínio, a polícia federal deveria abrir inquérito dentro de quarenta e oito horas. Vendo a ação desproporcional que fizera, se comparado ao estrago do seu banquete, principalmente para um empresário esclarecido e milionário, o vingador Jéferson, naquela mesma manhã, ordenou aos seus capangas para sustar a caçada e a execução da sentença.
Era tarde demais, agora a caçada impiedosa estendia-se aos municípios vizinhos, pela atraente remuneração. A inovação desse mercado de trabalho abriu espaço para criar uma nova categoria na sofrida e laboriosa massa de desempregados.
A repercussão foi desastrosa e mesmo fugindo pela madrugada, Jéferson até hoje deu um calote em mais de duzentos trabalhadores que jogando os gatos no mar, nos mangues e nas matas, não conseguiram receber os cinqüentas reais por cabeça de cada gato.
Finalmente, diz a lenda popular que quem mata um gato, tem sete anos de atrasos de vida. Não imagino quantos anos de atraso couberam ao milionário Jéferson, porém pelo que se comenta na região, antes de completar um ano dessa tragédia felina, ele foi preso pela polícia federal e trancafiado.

E sabe qual o motivo? Foi preso por GATUNAGEM... (J.Lacoli)

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