Castro e as marcas da traição
Essa é uma história muito interessante e ocorreu na cidade do Recife, há mais de quinze anos, por ocasião da visita do Seu Castro, comerciante dinâmico, bem sucedido na cidade de Manaus, ele de origem nordestina, desbravador corajoso que terminou por fazer fortuna naquela região.
Castro era um homem casado, de cor morena, boa pinta, cabelos pretos, rosto oval, olhos claros, bem falante como todo experiente vendedor.
Constantemente vinha ao Recife adquirir açúcar, tecidos, cimento e outras mercadorias para comercializar em Manaus, cujo volume o obrigava a fretar um navio para o transporte.
Experiente nos seus quarenta anos de vida, pai de dois filhos, estudara quando adolescente nos Estados Unidos, tinha vocação nata para o comércio. Com fama de bom trepador, falava-se à boca pequena, que as bonitas empregadas das suas lojas sempre passavam pela a sua cama.
Essas puladas de cerca eram feitas no maior sigilo e cercadas de todas as precauções, porque a sua mulher Beatriz Aziz, jovem bonita e fogosa, filha de árabe, de sangue quente, possuía um ciúme incontrolável e possessivo. E ele sabia do risco que corria e temia pelas suas conseqüências.
Beatriz era tão desconfiada, que controlava os passos do marido como cão farejador. Controlava as camisas, os lenços, as cuecas, meias, roupas, perfumes e sapatos, quer na saída do marido para o trabalho ou na sua chegada em casa e principalmente no retorno de suas viagens. Tinha obsessão por todos os detalhes, inclusive, os corporais. Ciúme miserável, irascível.
Pois bem, ele chegara de avião ao Recife no período da tarde, reuniu-se com o empresário Frederico para a compra de 60.000 sacos de cimento, bem como 40.000 sacos de açúcar.
Na manhã do dia seguinte, concluídos os negócios, dirigiu-se para almoço de confraternização em restaurante famoso da Avenida Boa Viagem. Desejava comer frutos do mar e beber whisky, aproveitando para descansar no período da tarde, pois regressaria a Manaus no vôo que partia do Recife lá pelas dez horas da noite.
No animado almoço, encontrou-se com o velho amigo Sérgio que se juntou aos demais, mantendo a prosa gostosa pela comida e pelas piadas. No meio da conversa, sabendo que Castro gostava de aventuras, sugeriu Sérgio um programa para aquela tarde, com duas belíssimas gatas, sugestão logo aceita por Castro, sem restrições.
Despedindo-se de Frederico, lá se foi o Castro e o Sérgio para o tão esperado encontro com as duas beldades, sempre elogiadas pelo anfitrião. Deixaram o carro num Posto de Gasolina antes de Olinda, encontrando-se com Amália e Paulinha que os esperavam dentro de um automóvel novo.
Depois das apresentações, Sérgio apresentou a namorada Amália e Castro, sem alternativa, ficou com a Paulinha. De fato todas duas eram belas mulheres, tinha por volta de vinte e três anos, corpinho malhado, cabelos bem penteados, cheirosas, olhos sedutores.
Foram para o Motel em Olinda, com vistas para o mar, coqueiros balançando ao vento, paisagem bonita digna das fantasias amorosas, foi o que pensava no momento Castro.
O único inconveniente que o desagradava, e ele detestava, era a fumaça do cigarro de Paulinha, fumante inveterada, que parecia engolir um cigarro após o outro, principalmente depois de tomar um gole de cerveja que, desde que chegara ao quarto do motel, não tirava da boca. Banho tomado para refrescar o corpo, despidos e deitados na cama para início da transa, Castro, apesar de não querer reprimir a parceira, notou que Paulinha não largava o miserável do cigarro que tanto o importunava.
Paulinha então, surpreendendo o companheiro, agachou-se entre as suas pernas, colocou uma lata de cerveja ao lado da cama e junto o cigarro que fumava.
Começou a chupar o amante temporário, mostrando as suas habilidades, em três tempos: uma chupada no cacete de Castro, um gole de cerveja, e uma tragada no cigarro. Era uma operação perigosa, nunca experimentada por Castro, que, por educação, procurava observar o começo dessa transa. Paulinha gabava-se de ser uma maestrina em escala musical: sabia chupar em compasso binário, ternário e quaternário, mas Castro arrepiava-se todo nessa troca de mãos e boca, o pinto ainda meio bambo, até que veio o inusitado. Paulinha perdeu o ritimo da arriscada operação, depois de tragar o cigarro e, retornando o braço, a brasa do cigarro ferrou a coxa de Castro que deu um salto dos diabos, recolhendo aos gritos o cacete amolecido como a rapidez de um raio.
Então, gemendo de dores, gritava Castro enfurecido: - Que porra!, que porra!, Você veio aqui para chupar ou para fumar?
Paulinha assustou-se derrubando a cerveja e o cigarro, procurava penitenciar-se, suplicando desculpas, prometendo chupá-lo sem as alternâncias dos compassos musicais. Castro estava intransigente, aborrecido, procurava passar gelo na queimadura que ardia, não mais queria saber de sexo. Vestiu-se para deixar o motel, estava aguardando o amigo Sérgio.
Paulinha estava murcha, esquecera o cigarro, não mais sabia o que fazer, além das mil desculpas que pedia. Castro, então, mais calmo, lembrou-se das lições do velho mestre de sacanagem Ananias, quando o orientava no passado: evite fantasias sexuais desconhecidas, meu amigo. Se não for o feijão com arroz, nunca vá além do compasso binário, hoje o mais usado, isto é, da chupada para a xoxota. Siga o método tradicional, vá sempre de samba de uma nota só, é infalível e mais seguro.
Castro retornou ao Hotel, arrumou as malas e dirigiu-se à noite para tomar o avião de regresso a Manaus. Estava agora preocupado com a rigorosa vistoria física que teria de submeter-se com a esposa Beatriz.
Como justificar uma queimadura de cigarro, no dorso da sua coxa, principalmente, sem que houvesse danificado a sua calça?
Castro, por fim, encontrou uma desculpa esfarrapada, para justificar o acidente com a desastrada Paulinha e disse ao chegar para Beatriz:
- Meu amor tomei excessivo whisky na companhia do amigo Sérgio e penso que essa queimadura foi com o ferro de engomar do hotel, ele soltou uma língua de fogo. E mais não disse... (J.Lacoli)
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