sábado, 3 de novembro de 2007

Venceu a dor da mordida do cachorro, dançando!

Esse foi um caso verídico. Roberta e Sílvia eram duas amigas, de longo tempo, exerciam a profissão de engenheiras e arquitetas, trabalhavam juntas, eram afinadas, estudiosas, completavam-se nos trabalhos que desenvolviam em busca da perfeição. Seus projetos faziam renascer o bom gosto pelas obras antigas, realçando as artes barrocas nos seus detalhes mais imperceptíveis.
Pois bem, recentemente elas trabalharam exaustivamente no projeto e na reconstrução de um prédio antigo e abandonado no Pelourinho, numa das ruas do Centro Histórico da Cidade de Salvador, local onde seria instalado um bar temático.
Estrategicamente localizado, destinava-se a turistas, intelectuais e notívagos, sendo o ambiente aconchegante, cheio de lustres de cristais, móveis antigos, pinturas renascentes, candelabros artisticamente trabalhados, tudo ajustado a belle époque, adequando-se perfeitamente ao nome poético de chamar-se de bar “La Intimidad”, em pleno coração do Pelourinho. Roberta e Sílvia, ao receber os convites para a inauguração, também convidaram Nilda para acompanhá-las naquela noite engalanada que, como constava no bonito convite, seria de suspense, de glamour, de muito som, agitação e boa conversa em volta da melhor intelectualidade baiana, escritores, jornalistas, poetas, boêmios e cantores. Uma festa arretada era o que prometiam, na linguagem da terra.
Roberta era a mais eufórica e animada. Adivinhava tempo de prazer, queria dançar, pular, saltar, mexer-se, pois aquela noite de inauguração seria sua, só sua, custasse o que custasse, ali estava o coroamento de mais um seu trabalho. Animou-se tanto que comprovou vestido novo, de seda pura, colorido, bem ajustado ao corpo, meias da mesma cor do sapato e bolsa. Tudo novinho em folha, como exigia a ocasião.
No dia marcado, acordou cedo, telefonou para a amiga Nilda renovando o convite e lembrando do horário britânico da inauguração, seriam às nove da noite, impreterivelmente. Ainda teve o cuidado de alertar a amiga: -Nilda, não se preocupe com o transporte, que passarei no seu apartamento para apanhá-la e de lá vamos para a casa de Sílvia, de onde sairemos juntas para a festa, pois é no mesmo caminho para o Pelourinho.
Ajustado o encontro, Roberta teve tempo de deixar as crianças com a irmã que morava na Barra, ali perto e, no período da tarde, dedicou seu precioso tempo no cabeleireiro e maquiador, preparando-se para abafar no salão de danças do “La Intimidad”.
Tudo em ordem, lá pelas oito da noite, já embonecada, deu partida no seu velho fusca e dirigiu-se à casa de Nilda, que já estava vestida e charmosa à sua espera. Roberta estava eufórica, indócil e ao se encontrar com a amiga a saudou entusiasticamente: -Vamos, Vamos, Nilda, hoje é nosso dia, não podemos nos atrasar!
Partiram as duas alegres, em papo animado, Nilda preocupada com a euforia de Roberta que ultrapassava os veículos em alta velocidade, e, apesar da manifesta advertência da amiga, Roberta ainda teve tempo para dizer:
-Nilda, não se preocupe, vamos tomar um wisky na casa de Sílvia para chegarmos aquecidas na festa, numa boa.
Em pouco tempo, Roberta parou o velho carro na frente da casa de Sílvia e, de um só pulo, abriu o portão e adentrou falante e imprevidente a procura da amiga:
-Sílvia, Sílvia, gritou Roberta, vamos tomar um wisky e vamos embora, minha amiga, pois estamos atrasadas! Bem, os gritos de Roberta soaram dentro da casa, de Sílvia como um grito de guerra.
E foi aí, de surpresa, que o cachorrinho “Apache”, vigia e fiel escudeiro da família, aquele cachorrinho baixinho, gordinho, com o focinho afunilado e dentes afiados, entrou logo em ação, atacando com violência o calcanhar de Roberta, mordendo-a de maneira faminta, despedaçando meias e sapatos, para espanto e medo da ilustre visitante, completamente indefesa. Foi um auê, um Deus nos acuda! Apache pendurava-se no calcanhar de Roberta, os pedaços das meias voavam pela casa, o sangue a jorrava manchando o tapete persa. Roberta rodopiava pelo salão, procurando livrar-se do eficiente guarda familiar; sapateava como se estivesse a bailar no “La Intimidad”, ensaiava a prévia da sua dolorida apresentação. Em lugar das canções românticas, Roberta agora se descontrolava emocionalmente e gritava desesperada:
“Porra”, “Porra”, prendam esse cachorro assassino, cachorro filho da puta ““. Ora porra, ora porra, isso é coisa que se faça!”“.
Os gritos de desespero de Roberta, mais incentivava o fiel “Apache” que entendia que os seus gritos de socorro, fossem de estímulo à luta pra valer. E Roberta continuava gritando, chegando mesmo a acordar a sexagenária mãe de Sílvia que doente e segurando uma bengala, levantou-se da cama, com redobrado esforço, atordoada com o festival de porras, para tentar acalmar a visitante ao lhe implorar: Calma, calma, minha filha! E Roberta, descontrolada, respondia: Calma, calma uma porra! Eu vou é matar esse cachorro filho da puta!
Nilda, descendo de cima do sofá, procurou interferir e restabelecer o bom senso, em meio daquela inesperada confusão, queria conduzir a amiga para o pronto socorro no Bairro da Piedade, enquanto Sílvia, chorando e solidária com a amiga Roberta, com um vidro de methiolate na mão e esparadrapo na outra, quedava-se à fúria incontrolável da amiga. Na companhia de Nilda, Roberta retirou-se com o pé sangrando, os sapatos nas mãos, em busca do socorro imediato.
Atendida no laboratório hospitalar, recebeu três pontos no calcanhar, mas, mesmo assim, dirigiu-se ao Hiper-Mercado Dia e Noite, onde comprou nova meia, passou batom nos lábios e retocando a maquiagem, dirigiu-se, sem gemer, para participar da inauguração do “La Intimidad”.
Ao entrar no bar, as dores dissiparam-se entre os discursos poéticos, cumprimentos e abraços e Roberta, já refeita, deu uma boa tragada no cigarro, tomou a primeira dose do desejado wisky e sentou-se aliviada para a grande jornada. Mais outra dose dupla do escocês, “on the rocks”, apreciou os salgadinhos e acepipes e entrou firme no salão dançando quente o Axé-Music. Roberta dançou a noite inteira, do forró de pé de serra até o hino nacional, estava anestesiada, indócil, suada dos pés a cabeça.
Sambou todo o tempo sem parar, exausta retornou à sua casa, nas primeiras horas da manhã, e ao raiar do novo dia, teve tempo para contemplar satisfeita, de dentro do veículo, o azul lindo do mar da Bahia ao descer a Ladeira da Barra.
Chegou de táxi, não podia mais dirigir. O tornozelo estava inchado, parecia uma mão de pilão. Precisou da ajuda do motorista para sair do carro, mas Roberta, depois de tudo, estava feliz, e realizada. Esquecera por completo as mordidas do cachorro Apache, agora Roberta era a síntese dos valentes apelidados de “cachorros da moléstia”. E concluía em desabafo: Haja porras, que ninguém é de ferro! (J.Lacoli)

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