segunda-feira, 19 de novembro de 2007

A urucubaca da minha Comadre dno Reveillion

As festas de Natal e de Fim de Ano, tradicionalmente, são comemoradas em família, época da cristandade, quando todos nós procuramos fazer uma auto-análise; pedir perdão dos nossos pecados; buscarmos o aconchego entre os parentes e amigos mais íntimos. É o período do perdão festivo, ao contrário da Semana Santa que é de mais de penitências e rezas. Nessa época natalina invoca-se a boa vontade do Papai Noel, o velhinho de roupa vermelha, com barbas de algodão, amante monetário, cujo olhar míope, secular, dificilmente, enxerga as pessoas mais carentes da sociedade. Por mais que se exalte a sua bondade, apregoada no chamamento intenso das propagandas e comerciais nas TVS, o velhinho passa de bom moço para os abastados, torcendo o nariz para os miseráveis e desempregados.
Bem, deixemos esse negócio de Papai Noel de lado e falemos do espírito natalino; das comemorações pela passagem de mais um ano. E o bom de tudo isso, é a reunião em família, Os beijos e abraços e os votos de Feliz Ano Novo, faz de tudo isso o melhor do Reveillon, o coroamento pela passagem do ano.
Pois bem, nesse último 31 de dezembro de 1997, tivemos a felicidade de reunir em nossa casa, como habitualmente fazemos há muitos anos, os Reopell, os Espinar Guerra, os Mendes, os Salomão, os Izaias e os Lacerda de Oliveira, para a confraternização do fim do ano. Além dos patriarcas, velhos amigos, estavam presentes as senhoras; os filhos já adultos, os genros, as noras, os namorados e principalmente os netos. O que era no passado uns vinte, hoje anda em torno de mais de quarenta, sinal de que a família unidade vive unidade e multiplica-se unida, apesar de todas as dificuldades enfrentadas a cada dia. Foi maravilhosa a passagem do ano, a alegria renovada pelo convívio com as pessoas a quem dedicamos uma amizade fraterna e sincera.
A nota pitoresca ocorreu já nas primeiras horas do ano novo de 1998. É que a senhora Espinar, uma paulista já bem paraibana, que tem por costume e tradição, na entrada de cada ano e antes de recolher-se à cama, lavar os pés no mar, deixando as mazelas do ano findo escoar-se na maré de vazante, para que a felicidade venha a sorrir no ano novo. Essa também é uma crença nordestina, uma superstição bem baiana.
Havia terminado a festa na casa dos Oliveira pela madrugada, quando a senhora Espinar lança a idéia entre os convivas para a evocação da penitência marítima a Iemanjá. A aprovação foi unânime, com exceção do anfitrião, pois estava vencido pelo cansaço e pelo sono. Era o momento dos pedidos à Iemanjá, logo depois das preces religiosas que tinham sido feitas por ocasião da ceia. Nesse momento de justificada euforia, levanta-se a comadre Margô, baiana de legítima origem, uma líder feminina, inflamada, cheia de verve política e vai logo bradando lá do terraço da casa:
-Hoje eu não vou molhar só os pés, minha gente. Agora vou tomar é um banho de mar, molhar o vestido, salgar o corpo e limpar a alma.
E voltou a repetir com entusiasmo: -Vou me livrar de todas as quizumbas de l998!
Assustado com a disposição da minha comadre, indagou surpreso o patriarca dos Reopell:
-Um banho? Logo um banho, Margô? Você parece que terminou ano muito carregada, completou preocupado.
-Sim, sim, respondeu Margô, cheia de incontido entusiasmo: Vou tomar um banho dos pés à cabeça.
E lá se foram em caravana cívica rumo à praia de Tambaú, lembrando os terreiros de macumba que descem da Serra para as homenagens á Iemanjá. Mal estacionaram os carros à beira mar, livraram-se dos sapatos caros, adquiridos para a festa e, descalços, sob o comando e o brado de guerra da comadre Margô, foram todos correndo para a praia, em louca disparada.
Inadvertidamente, na escuridão, apressados, a comadre Margô foi a primeira a entrar no mar, iria cumprir as promessas e o fez entrando logo com o pé esquerdo. Esqueceu a grande líder baiana, do primeiro mandamento da superstição: Nunca entrar no mar com o pé esquerdo, pelo azar que isso acarreta. É uma imprevidência imperdoável. Por isso, ela recebeu o castigo: uma ferrada inesperada na palma do pé, e o seu grito de dor ecoou por toda Tambaú, abafando completamente os fogos de artifícios que ainda pipocavam. Ela foi vítima de uma espinha de peixe deixada ao acaso na praia, que feriu o pé da comadre Margô e o sangue jorrou sem compaixão. Assustados, o bloco penitente recuou, suspendendo a marcha e as oferendas. Era tempo de socorrer a comadre Margô, o momento era de solidariedade e dor.
A comadre Margô começou o ano novo com uma tremenda urucubaca. É que Iemanjá estava zangada, ocupada, aborrecida. Estava sobrecarregada de trabalhos e de pedidos. E a reza de Margô, pelo visto, não foi bem aceita.
Mas temos certeza que o seu grito de dor e o sangue derramado sobre a praia de Tambaú, transformarão as suas preces em felicidade para ela e também para todos os seus amigos.
Fica a lição de sempre: no próximo ano novo convém não esquecer que, ao entrar no mar para molhar os pés, rezar, fazer pedido e preces, deve-se ter a imperdoável precaução de entrar sempre com o pé direito, mesmo assim, calçado de sapato de comprovada resistência.
Do contrário, tenha certeza, Yemanjá não vai perdoar! (J. Lacoli)

1 Comentários:

Às 23 de novembro de 2007 às 23:32 , Blogger Sergio David Alvarez disse...

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