A urucubaca da minha Comadre dno Reveillion
As festas de Natal e de Fim de Ano, tradicionalmente, são comemoradas em família, época da cristandade, quando todos nós procuramos fazer uma auto-análise; pedir perdão dos nossos pecados; buscarmos o aconchego entre os parentes e amigos mais íntimos. É o período do perdão festivo, ao contrário da Semana Santa que é de mais de penitências e rezas. Nessa época natalina invoca-se a boa vontade do Papai Noel, o velhinho de roupa vermelha, com barbas de algodão, amante monetário, cujo olhar míope, secular, dificilmente, enxerga as pessoas mais carentes da sociedade. Por mais que se exalte a sua bondade, apregoada no chamamento intenso das propagandas e comerciais nas TVS, o velhinho passa de bom moço para os abastados, torcendo o nariz para os miseráveis e desempregados.
Bem, deixemos esse negócio de Papai Noel de lado e falemos do espírito natalino; das comemorações pela passagem de mais um ano. E o bom de tudo isso, é a reunião em família, Os beijos e abraços e os votos de Feliz Ano Novo, faz de tudo isso o melhor do Reveillon, o coroamento pela passagem do ano.
Pois bem, nesse último 31 de dezembro de 1997, tivemos a felicidade de reunir em nossa casa, como habitualmente fazemos há muitos anos, os Reopell, os Espinar Guerra, os Mendes, os Salomão, os Izaias e os Lacerda de Oliveira, para a confraternização do fim do ano. Além dos patriarcas, velhos amigos, estavam presentes as senhoras; os filhos já adultos, os genros, as noras, os namorados e principalmente os netos. O que era no passado uns vinte, hoje anda em torno de mais de quarenta, sinal de que a família unidade vive unidade e multiplica-se unida, apesar de todas as dificuldades enfrentadas a cada dia. Foi maravilhosa a passagem do ano, a alegria renovada pelo convívio com as pessoas a quem dedicamos uma amizade fraterna e sincera.
A nota pitoresca ocorreu já nas primeiras horas do ano novo de 1998. É que a senhora Espinar, uma paulista já bem paraibana, que tem por costume e tradição, na entrada de cada ano e antes de recolher-se à cama, lavar os pés no mar, deixando as mazelas do ano findo escoar-se na maré de vazante, para que a felicidade venha a sorrir no ano novo. Essa também é uma crença nordestina, uma superstição bem baiana.
Havia terminado a festa na casa dos Oliveira pela madrugada, quando a senhora Espinar lança a idéia entre os convivas para a evocação da penitência marítima a Iemanjá. A aprovação foi unânime, com exceção do anfitrião, pois estava vencido pelo cansaço e pelo sono. Era o momento dos pedidos à Iemanjá, logo depois das preces religiosas que tinham sido feitas por ocasião da ceia. Nesse momento de justificada euforia, levanta-se a comadre Margô, baiana de legítima origem, uma líder feminina, inflamada, cheia de verve política e vai logo bradando lá do terraço da casa:
-Hoje eu não vou molhar só os pés, minha gente. Agora vou tomar é um banho de mar, molhar o vestido, salgar o corpo e limpar a alma.
E voltou a repetir com entusiasmo: -Vou me livrar de todas as quizumbas de l998!
Assustado com a disposição da minha comadre, indagou surpreso o patriarca dos Reopell:
-Um banho? Logo um banho, Margô? Você parece que terminou ano muito carregada, completou preocupado.
-Sim, sim, respondeu Margô, cheia de incontido entusiasmo: Vou tomar um banho dos pés à cabeça.
E lá se foram em caravana cívica rumo à praia de Tambaú, lembrando os terreiros de macumba que descem da Serra para as homenagens á Iemanjá. Mal estacionaram os carros à beira mar, livraram-se dos sapatos caros, adquiridos para a festa e, descalços, sob o comando e o brado de guerra da comadre Margô, foram todos correndo para a praia, em louca disparada.
Inadvertidamente, na escuridão, apressados, a comadre Margô foi a primeira a entrar no mar, iria cumprir as promessas e o fez entrando logo com o pé esquerdo. Esqueceu a grande líder baiana, do primeiro mandamento da superstição: Nunca entrar no mar com o pé esquerdo, pelo azar que isso acarreta. É uma imprevidência imperdoável.
A comadre Margô começou o ano novo com uma tremenda urucubaca. É que Iemanjá estava zangada, ocupada, aborrecida. Estava sobrecarregada de trabalhos e de pedidos. E a reza de Margô, pelo visto, não foi bem aceita.
Mas temos certeza que o seu grito de dor e o sangue derramado sobre a praia de Tambaú, transformarão as suas preces em felicidade para ela e também para todos os seus amigos.
Fica a lição de sempre: no próximo ano novo convém não esquecer que, ao entrar no mar para molhar os pés, rezar, fazer pedido e preces, deve-se ter a imperdoável precaução de entrar sempre com o pé direito, mesmo assim, calçado de sapato de comprovada resistência.
Do contrário, tenha certeza, Yemanjá não vai perdoar! (J. Lacoli)
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