segunda-feira, 19 de novembro de 2007

E a cobra fumou!

E cada caso engraçado que acontece na região de Ituberá, na costa do dendê, ao sul de Salvador, na Bahia que parece uma piada ou grande mentira. Mas o amigo Luiz Carlos, conhecido como Chenco, toda a vez que viajo lá para aquelas bandas ele me aparece com cada história diferente, por incrível que pareça, verdadeira. Aliás, por mais que seja hilariante e até mesmo picante, eu só gosto de contar casos verdadeiros, com os nomes dos personagens fictícios para evitar aborrecimentos.
Pois lá em Itaberoê, distrito de Ituberá, o casal Benedito Xavier, mais conhecido por Bené e sua esposa Maria do Carmo, que em família e entre os parentes atendia pelo nome de Carminha, viviam casados há mais de trinta anos, aparentando, até então, plena felicidade conjugal.
Bené, de cor branca, cabelos pretos, magro, bem alto era muito desembaraçado. Comunicativo, gostava de esportes; das festas populares que ele mesmo promovia e da qual participava assiduamente. Além disso, Bené não dispensava uma rodada de pinga com os colegas de trabalho e amigos, bebia uma dose antes do almoço ou outras no final do expediente. Trabalhava na prefeitura, começara como auxiliar de escritório galgou posições hierárquicas superior, aposentou-se como fiscal de obras do município e, por forças das suas atividades, estava sempre ausente da família.
Carminha, por sua vez, morena de cabelos pretos, olhos castanhos, de média altura, religiosa, mãe de quatro filhos, já crescidos, dois rapazes e duas mocinhas. Vivia para o lar, sempre cuidou da educação dos filhos, mas como lutadora, encontrava tempo para ajudar o marido como podia, isto é: costurava vestidos para as madames da cidade, fazia doces de encomenda, nas lides domésticas não havia em Itaberoê, ninguém mais eficiente. O tempo foi passando, os filhos cresceram, Carminha estava prestes de completar sessenta anos, recolheu o trem de pouso, não mais queria saber de sexo, perdeu o entusiasmo, não tinha mais aptidão, lá se foi o tesão.
Mas, ao contrário, Bené que passou a trabalhar como capataz numa fazenda de seringueira, mantinha-se em plena forma física, as montarias e caminhadas pelos campos, mas o fortalecia. Estava vigoroso, seria campeão em qualquer atividade olímpica da sua categoria. Trabalhando longe de casa, não foi difícil encontrar uma cabrocha de vinte anos, na flor da idade, uma morena bonita, do tipo selvagem, cabelos pretos, dentes alvos, uma jóia de mulher.
Rosário, como era conhecida, tinha a pele brilhante, bronzeada, dizia-se que era da alimentação natural, das frutas da região, dos beijus, das ervas e das moquecas de peixe ao óleo de dendê. Com essa alimentação afrodisíaca, comentava Bené com os mais íntimos, Rosário era uma leoa na cama, disposição sexual incansável, o seu corpo era uma fornalha capaz de derreter qualquer macho que compartilhasse de seus carinhos.
Pois bem, foi assim que Bené logo se apaixonou, separando-se da mulher, os filhos já estavam crescidos, independentes, julgava-se, portanto no seu direito de tomar um novo rumo. E Rosário sabia como tratar o coroa, não precisava de muito rebolado na cama para deixá-lo enlouquecido. Bené alardeava que estava feliz com a nova vida, era um sujeito trepador, dotado de grande ferramenta, nunca sentira tanto prazer em sua vida, a cada noite aproveitava para enroscar-se no corpo da amada, gozar como se fosse a última despedida.
O romance estava para completar um ano, Carminha andava desesperada, disposta a tudo, escrevia e mandava recados para Bené para que voltasse, daria tudo de si para reconquistá-lo.
Como nada desse resultado, levou ao conhecimento dos seus pais que já sabiam do seu abandono através dos comentários do lugarejo, estavam aborrecidos, não admitiam tamanhas desonra familiar.
Então o senhor Bráulio Xavier e dona Dolores, seus pais, resolveram convidar o genro Bené para uma reunião em sua casa, iriam tentar convencê-lo a voltar ao doce lar. E Bené, insistentemente convidado, esquivou-se várias vezes, não tinha coragem de enfrentar o conselho familiar formado pelo sogro, por dona Dolores, pelos filhos e pela ex-mulher. Mas depois de recusar renovados apelos, decidiu num final de semana, comparecer a residência do sogro, chegando bastante atrasado, às nove da noite. Bené estava puxando um fogo dos diabos, bebera muito e quase tropeçando, falava alto, descontrolado.
Aberta a reunião do conselho, o patriarca Bráulio sentou-se a cabeceira, ao lado da mulher, enquanto Carminha na outra extremidade da mesa. Estavam todos em absoluto silêncio, quando Bráulio tomou a palavra, falou sobre o papel da família, das obrigações paternas, da vida harmoniosa entre os casais e, por fim, disse da desonra de ter uma filha abandonada pelo marido, sem saber quais os motivos da separação.
Apelou então para Bené para que voltasse a viver ao lado de Carminha, sua única e dedicada filha, dizendo: - Esse é o nosso grande apelo, Bené. Mas, agora nos diga afinal a verdade porque o senhor abandonou a minha querida Carminha?
Bené que escutara tudo calado, estava acuado, o sangue fervendo de raiva e da pinga que tomara. Levantou-se rispidamente, e disse em voz alta:
- O senhor quer saber mesmo porque eu abandonei a Carminha? Quer saber mesmo?
- Então o senhor Bráulio assustou-se e respondeu: - É prá isso que estamos reunidos em nossa casa, o senhor pode falar a vontade, seu Bené.
- Posso falar mesmo, posso? Olhando firme para Carminha.
- Já lhe disse que sim, seu Bené, respondeu apreensivo Bráulio.
- Então Bené, tomando coragem, levantou-se, abriu a braguilha, puxou o cacête para fora e batendo sobre a mesa do anfitrião desabafou: - Deixei a sua filha porque ela fugiu desse pau! E repetiu enfurecido: - Ela correu do meu pau!
Houve confusão, um corre-corre dos diabos. Os familiares, envergonhados, fugiam pela porta e pelo quintal. Carminha gritava e chorava alto, correndo em disparada para o quarto.
A reunião do “Conselho Familiar”, sem qualquer discussão, terminou rapidamente, seu Bráulio acabrunhado, não sabia o que fazer do livro das anotações.
Bené recolheu a sua rola, saiu tropeçando pela sala até encontrar a porta da rua sem que ninguém o impedisse.
Afinal todos reconheceram que a Carminha tinha toda a razão, com uma cacêta daquele tamanho, anormal, não tinha como agüentar os apertos do Bené.
E foi aí que a cobra fumou! (J.Lacoli)

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