segunda-feira, 1 de outubro de 2007

A oração debochada da Viúva rica

Essa história verdadeira me foi contada por um amigo que vivia no Rio de Janeiro. É lógico, tinha que ser no Rio, onde tudo acontece na maior simplicidade, sem que o fato venha a causar qualquer perplexidade ou indignação.
A protagonista carioca chamava-se Maria Christina, mais conhecida na roda íntima das suas amigas por Chris. Era um tipo de carioca exuberante, morena alta, pele bem curtida nas tépidas águas de Copacabana. Habitué dos banhos de sol tinha os cabelos pretos, lisos, os olhos castanhos, brilhantes quais duas safiras, uma marota que nem raposa fugidia.
Nasceu e criou-se à beira mar, local que freqüentava com assiduidade, a não ser quando estava na escola, sua ocupação de jovem adolescente. Tornou-se, em pouco tempo, uma mulher bonita, atraente, charmosa, o corpo escultural era um convite ao prazer.
Chistina pertencia à classe média, freqüentava também as dependências do Flamengo, seu clube de coração, que aprendeu a amar, acompanhando a tradição de toda a sua família. O amor pelo clube, podia afirmar-se era hereditário.
Foi assim que cresceu, tornando-se conhecida em todo o Leblon, onde morava em companhia dos pais, ocupando modesto apartamento com belíssima vista para o mar.
A rigor, a educação doméstica vigilante, não lhe permitia aventuras amorosas, a não ser algumas fugidas ao cinema e as boates, onde trocava carícias amorosas com um jovem inexperiente que morava no mesmo bairro. Mas nem por isso, Christina mostrava-se inocente, quando o assunto era o amor ou outras práticas sexuais ou alguma sacanagem mais avançada.
Nessa época, antes de formar-se em psicologia, ela conheceu um oficial do exército, R.Von Tropp, brasileiro, gaúcho, descendente de alemães, por quem se apaixonou ao ser apresentada por Risélia, sua colega de classe, no final da década de setenta. Não demorou mais que um ano de namoro e eis que Christina tornou-se esposa dedicada do brilhante oficial, com quem viveu por mais de vinte anos.
E, assim, Christina percorreu todo o país, acompanhando o marido que servia a laboriosa corporação, um Caxias no cumprimento do dever cívico, de tal forma que o oficial R. Von Tropp alcançou o generalato no limiar dos seus cinqüenta e seis anos de idade.
E Christina, sem filhos, tornou-se a grande paixão do general que tudo fazia para agradá-la e conquistá-la, fazendo todas as suas vontades. Mas Chris tornou-se uma criatura insatisfeita, não se adaptou aos costumes militares, sentia-se, assim, prisioneira do quartel, cuja residência estava sempre cercada de guardas militares, o que tolhia a sua liberdade, constantemente reclamada.
Não escondia o seu desgosto, a vida lhe parecia uma prisão e, por isso repetia: a minha liberdade civil, sem necessidade de manuais, não passa dos limites dos regulamentos militares.
Essa era a realidade, costumava desabafar, sem reservas, sempre que podia falar com as amigas nas rodas sociais. E, como se sabe, ela confessava, os militares convivem mais com militares, suas reuniões e festas conservam essa indisfarçável condição, impossível poder torná-las mais informais aos civis, por maior que sejam os seus esforços e aparências.
E Chris, apesar das regalias desfrutadas em razão do status do marido, sonhava com os prazeres do Rio, mas via-se prisioneira do seu amor, reclusa sem grades, vida enfadonha que não mais desejava.
Mas o destino mudou a sua vida, com a morte inesperada do general R. Von Tropp que faleceu vítima de enfarte.
Christina cobriu-se de luto fechado, retornando ao Rio de Janeiro para o apartamento recém-adquirido no bairro do Leblon, bem perto da praia de águas mansas, moradia tranqüila, longe dos quartéis e dos toques das cornetas.
Ali Christina procurou logo refazer a sua vida. Reencontrou-se com as suas amigas da faculdade, voltou a freqüentar a praia, academias de ginásticas, praticar aeróbica, massagens, salão de beleza, shopping e boates. Era uma nova mulher, reencontrou-se consigo mesmo e, em companhia da amiga e confidente Amália Bezerra, fez a primeira viagem ao exterior.
Bem, Christina desnudou-se completamente. Soltou a franga, na linguagem popular. Era agora uma mulher do mundo, de Paris, Londres, Barcelona, New York e por aí afora. Freqüentava as melhores lojas, restaurantes e hotéis. Não lhe faltava à boa companhia de homens bonitos, os mais ardentes freqüentavam a sua cama, enroscava-se no seu belo corpo.
Mas a pranteada viúva, no meio de tanta euforia, confessou a uma amiga, as razões da sua felicidade e como procedia habitualmente, antes e depois de cada viagem ao exterior, como se esse proceder, fosse, com certeza, o seu amuleto de sorte.
E dizia ela:
- Sempre que vou viajar Amália, dirijo-me ao cemitério de Botafogo, visto o meu vestido de seda preta, o mais bonito, aquele Versage que comprei na minha primeira viagem à Paris, faço uma maquiagem leve, batom vermelho e o perfume que o falecido gostava. Lá chegando, à beira do túmulo do meu saudoso marido, faço a minha penitência e solene agradecimento e, respirando bem fundo, falava: Ah. meu querido marido vim me despedir de você, meu amor, vou fazer mais uma viagem ao exterior.
Agradeço-lhe meu general Von, pela pensão que você me deixou. Estou muito bem, meu ex-amor, não posso me arrepender da minha nova vida e da sua generosidade. Sem essa pensão vitalícia estaria na miséria e sei que você não queria que a sua dedicada esposa passasse privações. Não era isso que você sempre me dizia, querido Von?
Mas agora posso viajar mais tranqüila, graças ao fruto da sua dedicação, meu amor.
E Christina fazia mais uma pausa, meditava em completo silêncio e voltava a falar baixinho: - Como você sabia, Von Tropp, eu estava exausta de lavar o seu uniforme verde oliva, de ver as mesmas pessoas, de ouvir batidas de botas e continências!
Agora não sou mais aquela mulher reprimida. Logo voltarei para lhe trazer flores, em agradecimento e aromas de perfumes franceses que você tanto gostava. E se você fosse vivo, meu general?
Ah! Von Tropp, você iria adorar as minhas travessuras na cama, as minhas novas fantasias e experiências eróticas. Iria lhe mostrar, meu pranteado marido, o que aprendi nas minhas andanças noturnas por Paris. Sei fazer, como nenhum militar, uma ordem unida perfeita: Completamente nua, seguro firme o pau da bandeira, sopro uma baita corneta (e que corneta!) e, em posição de sentido, canto a Marselhesa !
Até o seu ex-colega, o austero general De Gaulle, me apareceu em visão, em pé, sobre o Arco do Triunfo, contemplando a beleza do Champs-Élysées, somente para me aplaudir. Não é legal tudo isso, meu saudoso Von?
Pois bem, faço essas coisas numa boa, tudo pela Igualdade, Fraternidade e Liberdade. Viva a pátria amada!
E assim, Christina, em genuflexão sobre a lápide, chorava lágrimas de crocodilo e em pranto comovente, despedia-se do ex-marido para uma nova e divertida viagem, sob o patrocínio da gorda pensão que desfrutava.
Aliás, diga-se de passagem, e, apesar da veracidade dessa história, esse não é um privilégio dos poucos e brilhantes oficiais do nosso país, a quem a nação muito deve.
Soube de casos semelhantes, em maior número, de viúvas de milionários empresários paulistanos que procedem de igual forma.
Essa demonstração de gratidão da debochada viúva, só não alcançam as viúvas dos operários que recebem mísera pensão do INSS, que sequer dá para comprar um pacote de velas.
Apesar disso, elas sabem honrar a memória dos ex-maridos e lhes oferecem flores e não chifres!
Christina, ao saber dessa crônica, ficou aborrecida, irada e de forma irônica arrematou: - Seus idiotas, que besteira é essa de honrar memórias de ex-maridos! Com uma pensão desta vou fazer o quê? Continuar chorando?
Deu as costas, tomou um táxi com ar condicionado e saiu apressada em direção do Aeroporto do Galeão onde embarcaria, naquela noite, para a Europa.
E, antes mesmo de entrar no avião, virou-se para alguns críticos e desabafou arretada: -Tchau bobos!
(JLacoli)

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