segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Chegue pra cá, Vovó!

Gosto sempre de recordar os casos vividos em Ituberá, uma cidade litorânea, ao sul de Salvador, entre Ilhéus e Valença, terra do dendê, do cacau, piaçava e seringueiras. Ali vivi a minha infância e adolescência, convivi de perto com o seu povo que nos recebeu a mim e a minha família quando aportamos vindos do Banco do Pedro, um distrito cacaueiro de Ilhéus.
Devo logo dizer, que Ituberá era rica em fatos pitorescos, em histórias interessantes, em apelidos que ficaram famosos e que faziam nos divertir, como o fazemos até hoje.
E Pedro, mais conhecido como Pedro Pacá, um mulato forte, atarracado, que morava no Bairro do Vai Quem Quer, era um sujeito disposto ao trabalho, um pau pra toda a obra, como se diz na gíria popular.
Eu o conheci quando menino observava quando ele passava pela rua e a turma gritava para aborrecê-lo: -Chega Pra Cá, Vovó! E Pedro, visivelmente irritado, respondia: -Tome uma banana, seu filho da puta!
Com o tempo, fui crescendo e prestando atenção ao trabalho do Pedro Pacá que, como falei era pau pra toda obra.
Atualmente, imagino que as suas atividades se enquadrariam, exatamente, no perfil daquela mão de obra exigida pelo mercado japonês, classificados em três palavras iniciadas com a letra K: (Katiuchi, Kiran e Kikem, (desculpe-nos se a grafia estiver errada), cuja tradução é a seguinte: Trabalho Árduo, Sujo e Perigoso!
Sim, meu caro, isso mesmo, no primeiro mundo quer no Japão ou na Europa, há um tipo de trabalho recusado pelos nativos, trabalhos perigosos e insalubres que são destinados aos estrangeiros que ali buscam laborar.
Não era, assim, tão diferente em Ituberá daquela época, pois os serviços nos esgotos, desentupimentos, coleta de lixo e outros mais sujos, eram sempre destinados a Pedro Pacá. Até de coveiro trabalhava, um homem de sete instrumentos, insubstituível, de grande serventia. Era o tipo de operário desejado pelos países desenvolvidos.
Triste da vida se não tivéssemos os Pedros Pacás para realizar esses trabalhos. Mas o que mais me chamava à atenção nele, era o apelido de Chegue Pra Cá, Vovó e a sua reação quando provocado.
Somente depois de muito tempo foi que fiquei sabendo da história. É que Pedro nasceu gago, tinha dificuldades no falar, era órfão desde criança, fora criado desde a infância, por sua avó. Como se sabe, criança criada por avó sempre foi objeto de gozações, algo curioso que não sei explicar. E Pedro estava inserido neste contexto, pois desde cedo tinha morando com a sua avó, por quem tinha grande afeição e aconchegante liberdade.
Diz as más línguas, que o gago Pedro Pacá, era um jovem bem dotado, tinha uma ferramenta bem desenvolvida, estava classificado na categoria das Antas, mas havia quem afirmasse que ele assemelhava-se, nesse particular, a um pequeno jumentinho. Além desse fato, desde menino, acostumara-se a dormir na mesma cama com a sua avó.
Ainda segundo os fofoqueiros da cidade, os gazeteiros, foi daí que, nas noites frias de Ituberá, principalmente no inverno, com o terral úmido vindo da cachoeira, que o jovem Pedro Pacá tornou-se dependente e viciado do calor corporal da vovozinha, rechegando-a pelas madrugadas adentro, naturalmente, para aquecê-lo do alegado frio que dizia sentir.
Em sendo gago, a vizinhança o escutava nas caladas das noites, nas dobras da madrugada, quando ele insistentemente puxava a sua Vó para junto de si e reclamava: -Chegue pra cá vovó, chegue pra cá vovó!
Daí o sugestivo apelido de que tanto detestava, nada recomendável para a sua reputação de homem probo e trabalhador.
Aqui pra nós, já ouvi falar de vários casos incestuosos, irmão com irmã e até a monstruosidade de pai com filha, vez por outra os jornais publicam esses casos escabrosos. Mas, por incrível que pareça, pela primeira vez, fiquei sabendo do relacionamento afetuoso entre o neto e sua vovozinha.
Bem, o mundo está virado de cabeça para baixo, não tenho mais dúvidas. Portanto, aconselho que, de agora em diante, as avós devem cuidar dos seus netos de maneira amorosa, mas com bastante precaução, principalmente se ele for gago e se chamar Pedro. Esse negócio de CHEGUE PRA CÁ VOVÓ, é coisa do demônio! (JLacoli)

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