Bujango e o sopro da camisinha
Bujango, cujo nome nos traz a lembrança dos caubóis americanos, era na verdade, um menino travesso, nascido em Ituberá, bem perto do Recôncavo Baiano, região gostosa de viver, principalmente pela harmonia ambiental preservada, entre o verde das matas, suas cachoeiras e o mar.
Morava na vizinhança, como disse, daquela cidade secular, de hábitos conservadores, bem evoluída aos padrões nacionais, ainda hoje, se comparada às demais cidades do interior do país.
É bom que se diga que Ituberá, desde o início do século passado, possuía usina hidroelétrica, sistema de abastecimento de água encanada, serviços de esgotos, ruas calçadas, porto marítimo, tendo ainda campo de pouso, com linha regular de aviação, para aeronaves de pequeno porte.
Além disso, desde o final da década de cinqüenta, que a cidade captava sinais de televisão e, com isso, estava constantemente antenada aos grandes acontecimentos, na área política e econômica do país e exterior.
Povo civilizado e bem informado, com a sua economia alicerçada nas culturas do cacau, dendê e seringueira, os seus habitantes tinham toda a razão de cultivar os hábitos das grandes cidades, influenciados, desde aquela época, pelas informações das televisões.
Eis porque o nosso irrequieto Bujango, desde a infância e adolescência, ficou famoso pelas suas aventuras e seus atos irreverentes e inconseqüentes.
Ele era o quarto filho de uma família modesta, o pai rigoroso na educação, às vezes até rude, excedendo-se na disciplina paternal, tornando-se famoso e temido pelas surras que diariamente aplicava nos filhos, sob os motivos mais elementares e fúteis.
Nem por isso os filhos progrediram no saber, porque se pancada educasse, a sua prole e seus descendentes, seriam todos eles letrados, mestres, doutores e Phds.
Foi assim com Bujango, galeguinho danado, sardento, olhos esbugalhados, cabelos araçuaba, barrigudinho, avermelhado, criador de casos, um pequeno arruaceiro, teimoso que só o diabo.
Numa certa manhã de sábado, estávamos na praça do jardim da cidade conversando numa roda de irmãos e amigos: Eu, Zito de Yomar, seu irmão Carlinhos, Noguchi e Garoto, quando o danado do Bujango, que saía da casa apressado, encontrou um pedaço de borracha branca, ali por perto, em plena calçada, e alvoroçado, causou o maior fuzuê.
É que Bujango recolheu o misterioso achado e saiu gritando feito doido: -Achei, achei, achei uma bola de aniversário!
É que bola de aniversário colorida, naquela época, era uma grande novidade, somente encontrada nas festas dos ricaços do cacau e, portanto, consistia o seu achado uma preciosidade.
E os gritos de alegria de Bujango, com ar de descobridor, arrogante, inganjento por natureza, abrindo de longe a sua mão, deixava à mostra somente um pequeno pedaço branco da borracha, aumentando assim a nossa curiosidade.
Logo a seguir, tentando nos causar inveja, num rompante, fez a primeira e única demonstração do tão precioso achado. Enchendo os pulmões com o ar fresco da manhã, dando um sopro juvenil no estranho objeto, que de imediato espichou entre os seus dedos, de forma descomunal, não na forma de uma bola de aniversário.
Levamos um susto quando vimos que a tal bola, de fato, era uma “Camisa de Vênus”, preservativo usado numa época quando não existia AIDS, segurando Bujango em suas mãos o curioso objeto, na forma de um grande caralho!
Ao vermos a novidade tão escondida, gritamos a uma só voz: -É uma camisa de Vênus! É uma camisa de Vênus!
Bujango assustou-se ao ouvir o grito de nossa gozação. É que gritávamos alto, sorriamos sem parar. Um escândalo, um gozo! Até hoje continuo a sorrir, quando me lembro da cara de Bujango.
E Bujango, envergonhado, cabisbaixo, soltou rapidamente de suas mãos o caralho inflável, e este rodopiou pelos ares, em piruetas, até que se esvaziou na calçada, enquanto ele saia em disparada para a sua casa, sob os nossos gritos: -BUJANGO, BUJANGO, SOPRA A CAMISINHA!
Bujango fugiu em disparada, estava com a boca suja de melaço cinzento, foi lavar-se, prometendo não mais soprar bolas de aniversário e, dessa forma, nunca mais cantar PARABÉNS PRÁ VOCÊ! (JLacoli)
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