quarta-feira, 19 de setembro de 2007

O grito da salvação: Tô contigo e não abro!

Esse caso foi muito interessante e aconteceu no Rio de Janeiro, há pouco mais de dez anos. Quem conhece ou vive nos grandes centros, como São Paulo e Rio, sabe do sofrimento de quem depende do transporte urbano para locomover-se, principalmente para os que moram distante e que, na maioria das vezes, têm de pegar três ou quatro conduções para chegar no horário do trabalho.

Moram nos bairros longe dos centros, acordam lá pelas quatro da matina, conferem se tem alguns trocados no bolso, geralmente para ele ou algum filho escolar, contam os vales transportes para garantir a locomoção, e lá se vão, de estômago vazios, para o ponto do ônibus ou metrô, rezando para que não atrase ou que não chova, como acontece sempre no verão.

Esse é o drama de todos os dias, árduo, massacrante, demolidor do ser humano, esse herói anônimo, trabalhador incansável, estressado crônico, que luta, com todas as forças pela sobrevivência da família.

Pois bem, o nosso personagem, é o Carlos Aquino, advogado brilhante, egresso da Paraiba, requisitado para trabalhar no Rio por renomado escritório de advocacia, como justiça a sua inteligência. Não tendo veículo próprio, morava na Zona Sul, região nobre, utilizava-se dos coletivos que faziam a linha Barra/Centro.

Elegante, de terno e gravata, pasta executiva à mão, via-se logo que era um lorde entre os humildes passageiros que lotavam os ônibus, naquele empurra-empurra dos diabos. Mas ele logo se acostumou com tal situação, levado pelo sonho idealista, pretendia retornar à sua terra para atividades judicantes mais elevadas.

Entre os trabalhos jurídicos, petições, agravos e recursos, o Dr. Carlos Aquino freqüentava os tribunais nas audiências semanais, recolhendo desse contato à experiência que tanto precisava, agregando novas e agradáveis amizades entre os colegas de trabalho.

Já se acostumara na cidade, procurava agora entender os seus mistérios, a magia das escolas de samba, a paixão pelo futebol, a vibração da torcida do seu time favorito, o Fluminense, também conhecido pela alcunha depreciativa de pó de arroz.

Ele nem ligava para isso, o importante eram as vitórias do seu time, os campeonatos que ganhavam com freqüência, no ardor dos clássicos Fla x Flu.

Para completar o seu ciclo das paixões, nada melhor do que uma bela conquista, a namorada de nome Márcia, carioca da gema, moradora do mesmo bairro, companheira com quem dividia o coração e o orientava nos costumes e hábitos da cidade.

Não era um amor qualquer, temporário, vulgar, sem sentimentos e raízes mais profundas. Nada disso. Marcinha caíra do céu, os livros jurídicos ficaram em segundo plano, logo estava Carlinhos freqüentando a casa da futura noiva, compartilhando os programas da família, os passeios, os banhos de mar, os restaurantes, chepando os churrascos, as feijoadas e o chope gelado. Era de fato uma boa vida, a vida que pedira a Deus.

Mas, um certo dia, a vida de Carlinhos esteve por um fio, pela sua ignorância da gíria carioca, não fosse a pronta interferência de Márcia.

É que Carlinhos e Márcia retornavam para a casa, pegaram um ônibus no centro, ali pela Candelária. Sol escaldante, lotação super cheia, tráfego engarrafado, calor infernal dentro do veículo.

O motorista, um crioulo alto, bem forte, musculoso, cabelo black power, com quase dois metros de altura, usava óculos escuros, suava feito um cuscuzeiro.

Como se sabe, não há trabalho mais duro do que dirigir ônibus no Rio, com mais de doze horas ao volante, enfrentando a cada instante o perigo, um verdadeiro inferno.

Para completar o desacerto de Carlos Aquino, naquele dia o Flamengo perdera de goleada para o Fluminense, time de coração do motorista Chiquinho, que estava com incontrolável mau humor, avançando os sinais, imprimindo alta velocidade e freando bruscamente. O perigo rondava aquela viagem, era o que pensavam, em silêncio, os passageiros.

E não tardou a acontecer, quando o motorista, sem qualquer motivo, avistando uma senhora de meia idade no ponto do ônibus, resolveu parar o veículo a mais de vinte metros do local, obrigando àquela senhora a correr, atarefada com a sacola e a sombrinha que trazia as mãos.

Aí, depois de subir no veículo e passar a catraca, a mulher postou-se junto do motorista e começou a reclamar:

- O senhor é mal educado, grosso, ignorante, não respeita os direitos dos cidadãos. Não tem respeito pelos velhos.

O motorista permanecia calado, o trafego não andava, o cheiro de óleo queimado e o calor do motor aumentavam a temperatura.

E a mulher ranzinza continuava ali, bem vestida, retirou os óculos, segurou firme naquela aste de proteção para quem viaja em pé e, em posição visível para todos os passageiros, continuava a reprimir o motorista, renovando, com irritação, as acusações de burro e mal educado.

A princípio todos estavam a favor da velhinha, mas a partir de um determinado momento, temendo um desastre de grandes proporções, passaram a reconhecer o comportamento de Chiquinho, que tudo ouvia e nada respondia. Como ele não tinha razão, não respondia as provocações da passageira.

A viagem estava chegando ao fim para o ilustre advogado e sua namorada Márcia e aproximando-se a sua parada, deslocou-se para frente do ônibus para saltar.

Tão logo o ônibus parou, o ilustre causídico, como se estivesse a discursar no tribunal pleno, evocando, com a sua erudição, os termos jurídicos mais complicados, arrazoando em latim e empregando palavras difíceis, virou-se para o motorista Chiquinho e os companheiros dessa odisséia urbana, assim falou:

- “Minha gente, Data Vênia, arrogo-me nas premissas Ad Judiciae desse motorista e apelo para acabar com esse estado de beligerância, sublevando as acusações dessa passageira”.

Nesse instante, o motorista, camisa aberta ao peito, colar barato, pendurado ao pescoço, com o emblema do Flamengo, o rosto desfigurado, embrutecido, recolheu uma flanela vermelha usada que estava ao lado, enxugou o rosto molhado de suor, arrancou a alavanca das marchas do motor e levantando-se de um salto gritou:

- Está me ofendendo, hein ? Está me ofendendo, né? Pois eu vou lhe dar uma lição, seu sacana metido à merda!

E partindo para cima de novel advogado, encontrou de frente o seu anjo protetor a namorada Macia que gritava:

- Alto lá, meu chapa ! Calma, Calma, meu irmão! Você não entendeu o que ela falou!

- O quê? o quê? indagava o furioso motorista.

E Márcia voltou a falar:

- Ele quer dizer, meu chapa, “Tô contigo e não abro”! E repetiu aflita: Tô contigo e não abro!

Ah!, respondeu o motorista, se é assim gente boa, vou recolher a borduna que daria um corretivo no seu namorado. E, ainda justificando a sua reação, disse:

- Estou com o coco zunindo, a mil cilindradas, mas aconseio o doutô a aprender a falar português, senão ele entra numa fria!

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