sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

O Médico Aloprado

Esta história vem lá do interior do Maranhão, de uma cidade do Vale do Mearim, região pré-amazônica, de terrenos férteis, propícios para a exploração daquilo que os agrônomos mais experiente denominam de ABC- Arroz, Boi e Capim. Gente humilde, trabalhadora, de costumes simples vivendo para a agricultura, tinha na colheita nos frutos do babaçu, a sua principal atividade.

Pois bem, quem vive em cidade do interior, sabe de suas limitações, dos aperreios que dependem do humor do chefe político do município, um empreguinho aqui, outro acolá, o trabalho modesto de merendeiras das escolas públicas, de auxiliar de enfermagem, dos serviços de limpeza das ruas ou de fiscal público, uma espécie de espião dos adversários políticos do prefeito. Os cargos mais importantes da cidade estão no judiciário, nos cartórios, nas delegacias de polícia e na área de educação e saúde.

Essa é a vida do interior e não era diferente na cidade do Mearim, onde o médico Gilberto da Fonseca, mais conhecido como doutor Fonsequinha, de família tradicional da capital, nomeado para o trabalhar no posto médico do município, tendo outro emprego no estado. Doutor Fonseca, esculápio inteligente, filho de rico e influente líder político do Estado, estudou e formou-se pela faculdade de medicina do Recife, especializando-se em ginecologia.

Bem, doutor Fonseca trabalhava no interior, clinicando há mais de cinqüenta anos, fazia de tudo, não tinha hora para comer ou dormir. Tornou-se em pouco tempo, a figura mais importante da cidade, passando a exercer uma liderança natural, cultivava e absorvia com naturalidade, essa magia política que vinha dos seus antepassados.

Não foi difícil e logo Fonsequinha enveredou pela política, sem abandonar as suas atividades médicas, atendia toda a população, das crianças aos velhinhos, era o dedicado médico da família, o homem da cabeceira, sabia a vida de toda a população, gabava-se de ter realizado os partos de mais de duas gerações da cidade do Mearim.

Com uma folha de serviços das mais laboriosas, Fonsequinha, de forasteiro, passou a líder da comunidade, elegeu-se prefeito por duas legislaturas, nada se fazia no município, das festas religiosas as comemorações mais simples, sem a sua presença, de cuja ausência poderia redundar o fracasso do evento ou o desprestígio dos patrocinadores. Beirando já os setenta anos, doutor Fonseca era o símbolo diabólico da sedução, mantinha aparência respeitável e fama de garanhão inveterado, suas aventuras sexuais deixaram pegadas que ficaram marcadas nos leitos conjugais de honrados casais, encobertas sob lençóis de linho, manchados pelas impurezas de tantas traições.

Seus casos tornaram-se famosos, ganharam dimensão extraterritorial, mesmo abafados pela amedrontada sociedade, dependente e receosa de cair em desgraça das graças do único médico da cidade. Mesmo com os riscos decorrentes do seu apetite sexual, Fonsequinha era terrível, comia da atendente, a enfermeira, à médica, mocinhas da cidade, beradeiras, filhas de comerciantes e agricultores, que vinham examinar-se com ele, não interessava saber da sua condição financeira ou classe social. Se o pitéu lhe agradava, fossem mulatas, morenas, loiras, ruivas, despertando o seu desejo, tentaria come-la, sem contemplação.

As mulheres precisavam ter muita moral e formação doméstica para não se deixar seduzir pelo esperto garanhão. Apesar do sigilo desses casos, que só vieram à tona depois de muitos anos, ficou-se sabendo das estripulias do doutor Fonseca.

Recentemente, um amigo particular, afilhado de Fonsequinha e que privava de sua amizade, parceiro de constantes viagens entre o Mearim e São Luiz, contou-me um dos seus casos que achei dos mais inusitados. Por volta da década de setenta, já à tardinha, Fonsequinha foi procurado por um agricultor que trouxera a esposa para reexame no seu consultório. A jovem senhora, morena bonita, cabelos pretos, seios pequenos, dentes perfeitos, corpo enxuto, na linguagem moderna, corpinho bem malhado, desde a primeira vez que lhe despertara o tesão. A jovem senhora queixava-se de corrimento vaginal, sem grande importância. No seu retorno para reexame, naquela tarde chuvosa, em presença do marido, um capionga humilde e desajeitado, depois examiná-la em detalhes e despi-la intencionalmente, Fonsequinha passou-lhe um creme pelas bordas da xoxota da fogosa paciente, deixando uma quantidade maior de creme na entrada da xoxota, tendo surpreendido o marido ao falar:

- Agora é preciso que você com a sua ferramenta, bem dura, introduza o material para dentro da cavidade.

O incauto agricultor, com as ordens inesperadas do médico, sentiu-se desnorteado e broxou.

Nunca fizera sexo na vista de ninguém com a sua mulher e, desorientado, desculpou-se respondendo ao médico:

- Não doutor Fonseca, nada disso, de jeito nenhum. A paciente é sua, o senhor é o responsável pelo tratamento.

Era tudo que Fonsequinha desejava. Já estava com o pau duro desde que começara a passar creme na xoxota da paciente, tendo baixado as calças ligeiro e subindo sobre a mulher do agricultor empurrou-lhe o cacête, tendo o cuidado de ordenar ao marido:

- Por favor, Manoelzinho, agora você segure os meus ovos para não queimar!

Depois de gozar, Fonsequinha completou: - Agora você pode levar a sua mulher, pois com essa aplicação ela vai ficar curada para sempre.

E o côrno foi embora agradecendo ao doutor Fonsequinha pelo tratamento... Vai ser côrno assim na casa do caralho! (J. Lacoli)

O Côrno e o Código de Honra

Esse caso verdadeiro ocorreu recentemente numa cidade do Baixo Sul da Bahia, região conhecida como Costa do Dendê e os seus protagonistas foram o japonês Hasunda Nishimura, sua esposa Dorotéia Laranjeira e Genésio Ramos.

Nishimura era um nissei, nascido em São Paulo, vivia entre os colonos que ali se fixaram para trabalhar na agropecuária. Tinha cerca de quarenta anos de idade, era forte, atlético, transferiu-se logo cedo para a capital paulista, onde cursou fisioterapia, aluno destacado. Como bom nissei, tornou-se professor de karatê, taikendo e artes marciais, atividades que garantia, confortavelmente, a sua sobrevivência financeira.

Aventureiro, foi morar na cidade de Belém, no estado do Pará, num lugarejo bem próximo, reduto de uma grande colônia de japoneses que viviam do cultivo da pimenta do reino, que pelo volume de produção e exportação, tornara-se o Eldorado daqueles imigrantes. Instalado há mais de dois anos na região, apaixonou-se por Dorotéia Laranjeira, uma paraense de média altura, tipo indígena, rosto arredondado, cabelos pretos, de pele morena, dentes alvos, olhos grandes, enigmáticos, que chamavam a atenção como quem desejasse transmitir poder e sedução.

Em pouco tempo estavam casados, o paciente nissei, pela sua própria índole, era calmo, dedicado a academia que montara, cultivava os segredos do corpo. Dorotéia, ao contrário, era expansiva, comunicativa, fogosa, dominadora, catedrática na sacanagem, já havia transado com meia dúzia de colonos. Elogiada pelas variadas fantasias que fazia na cama, era uma mulher quente, insaciável, segundo os entendidos, estimulada pelo calor da linha do equador que despertava a sua libido nas relações sexuais. Bem, com uma mulher desse tipo não se brinca, não adianta considerar-se machão, bom de cama, essas baboseiras que os tolos costumam elogiar-se. E, como era previsto, o Nishimura tornou-se um grande côrno, daqueles conformados, era voz corrente na colônia, a tal ponto que ele resolveu morar numa cidade no sul da Bahia, onde também havia um aglomerado de japoneses plantando seringueiras e cacaueiros.

Instalou-se na nova cidade, tornou-se conhecido, prestigiado, a sua academia era a mais freqüentada, não havia doenças de colunas, dores musculares e espinhelas caídas que o fisioterapeuta Nishimura não consertasse. Enquanto o nissei trabalhava dia e noite, Dorotéia voltou a dar as suas puladas de muro, passou a transar com Genésio Ramos, por quem se dizia apaixonada. O Genésio era um rapaz de trinta e cinco anos, branco, cabelos pretos, de média altura, era um sujeito feio e magro. Mas todos sabem, quando a mulher quer dar e gosta de alguém, não adianta saber se o sujeito é artista de TV ou o cachaceiro malandro do botequim perto de sua casa. Aí o fumo entra prá valer, salve-se quem puder!

E foi isso que aconteceu com Genésio e Dorotéia, a fogosa paraense, envolvidos numa paixão amorosa incontrolável, a tal ponto do romance tornar-se público, e Nishimura ao passar pelas ruas as pessoas apontavam para ele: - Lá vai o côrno japonês!

Como diz o ditado popular: “Araruta tem seu dia de mingau”, assim, o romance entre os dois chegou ao conhecimento de Nishimura, confirmando a máxima de que o côrno sempre é o último a saber. Nishimura, apesar do temperamento calmo, ficou enfurecido e procurou a Dorotéia e lhe disse:

- Já soube de tudo Dorotéia, você voltou a me trair com o magricela do Genésio. Você não tem jeito, se não bastasse o que você me aprontou em Belém, agora você descumpriu a sua promessa e continua a me cornear. Sou apaixonado por você, mas estou no limite do desespero, não sei se lhe mate ou ao seu amante!

- O que é isso, Nishimura, você está ficando louco? Será que você continua a escutar fofocas dessa gente desocupada? Você está faltando com o respeito com a sua dedicada esposa, isso é uma injúria. E concluiu: - Se você não me quer mais, amanhã mesmo volto para Belém do Pará, só quero mesmo as passagens. Vou para a casa dos meus pais.

Nishimura recuou, foi longe demais nas ofensas a Dorotéia, ajoelhou-se, pediu-lhe perdão, e retirando-se, ameaçou: - Onde eu encontrar esse Genésio vou aplicar-lhe uma surra exemplar.

Dorotéia ficou muito preocupada e aproveitando a ausência de Nishimura, mandou chamar a Genésio e o preveniu:

- Tome muito cuidado, meu amor, o Nishimura sabe das nossas transas, está furioso e o ameaçou, dizendo que lhe daria uma surra para deixa-lo todo quebrado.

- Está louco? Indagou apreensivo Genésio. E agora que devo fazer? Seu marido Nishimua é campeão de tantas lutas, estou fudido! Prá que eu fui me meter nessa arapuca?

- Calma, calma, Genésio, disse Dorotéia, segura da sua experiência de traidora.

- Calma o que?! Estou lascado, vou me picar dessa cidade, senão ele me mata,

- Nada disso, Genésio. Tenha paciência, meu amor. Vou lhe ensinar o que você deve fazer.

- O que devo fazer, Doroteia, é correr pelo mato assim que avistar o Nishimua.

Dorotéia deu uma boa risada com o medo de Genésio e repetiu: - Por favor, deixe eu lhe explicar como você deve se defender. É tudo muito fácil.

- Se for assim, meu amor, fale logo, fale logo, estou com medo, declarou Genésio.

- Pois bem, assim que o Nishimura partir para cima de você com ameaça de agredi-lo, você fique imóvel e cruze os braços.

- Tá louca!!! disse Genésio. E repetiu: você está é louca, o Nishimura vai me matar no primeiro golpe de karatê!

Dorotéia voltou a sorrir e afirmou com a experiência de muitas traições, tranquilizando-o: - Assim que você cruzar os braços, ele não vai lhe agredir. Nishimura o que mais respeita, é o seu código de honra que diz claramente: É proibido bater num homem desarmado, é uma desonra para o lutador, ele pode ser preso e perde tudo na vida! E a posição do homem desarmado é cruzar os braços.

- Olhe esse diabo de conselho, Dorotéia. Se esse negócio não funcionar, quem vai lhe matar sou eu.

- Deixe de bobagem, Genésio, faça o que lhe digo e vamos continuar a nossa vida amorosa.

Passados alguns dias, eis que Genésio estava despreocupado nas proximidades da feira quando o Nishimura veio correndo em sua direção e ele mal teve tempo para perfilar-se e cruzar os braços. Nishimura parou esbaforido, bem próximo de Genésio e foi logo falando alto: - Descruza braço, Homi !

- Prá quê? estou bem assim, respondeu Genésio, tremulo.

- É que japonês que falar com você...

- Então fale, então fale, respondeu Genésio.

- Mas descruza braço, homi, repetiu o Nishimura. Japonês quer falar como você homi, mas descruza braço!

Genésio tomou coragem, viu que Dorotéia tinha razão, Nishimura tremia de raiva, com o olhar esbugalhado para ele, quando Genésio gritou bem alto:

- Já disse japonês, não tenho nada prá falar com você!

Logo a aglomeração foi formada, o Nishimura se retirou calado, para a tranqüilidade de Genésio. Daquela data em diante, Genésio continuou comendo a Dorotéia sabendo que, até na cama, cruzava os braços.

Nunca imaginei que o juramento sobre Código de Honra de lutadores de artes marciais fosse um remédio tão eficiente para amansar cornos! (J. Lacoli)

O Dedo Vingador

Essas coisas tinham de acontecer na Bahia, cidade de todos os santos, encantamentos e mistérios. E foi o que ocorreu com o nobre Deputado Federal Manoel Azidório de Santana, ilustre representante do PT, em célebre discurso na Câmara Federal, em Brasília, quando, ainda sob efeito da sua gloriosa viagem celestial, confessava a sua indignação pela virulência a que foi submetido quando de exame especializado na sua próstata e, publicamente vinha protestar pela maneira selvagem como foi examinado, alertando as autoridades e seus pares para encontrar uma fórmula indolor e menos traumática na realização desses exames. Julgando-se, sem a menor vergonha, vítima desse estupro médico, esperava que, com o seu protesto, pudesse evitar o sofrimento da população e quiçá dos seus fiéis eleitores.

Examinado pelo renomado esculápio Aristarco Belarmino, com PHD em exames e cirurgias de próstata, conta-se nas rodas baianas que o ilustre deputado do PT exagerou nas suas queixas e reclamações. O doutor Aristarco Belarmino, renomado profissional, catedrático, bem referenciado em Salvador e no meio científico nacional, vai recorrer ao CRM para que o deputado venha retratar-se pelas injuriosas ofensas, inverdades propaladas pelo deputado federal.

Toda a Bahia conhece a vida pregressa do Dr. Aristarco Belarmino, no vigor dos seus setenta anos de idade, um mulato simpático, com quase dois metros de altura, corpulento, cabelos pretos, rosto saliente e bigode exuberante. O médico é sóbrio, de pouca conversa de hábitos conservadores. Há muitos anos, com consultório na Rua Chile, antigo ponto chic da granfinagem de Salvador, seu gabinete amplo, de móveis antigos, livros espalhados por toda à parte, Aristarco, longe da modernidade, tem o hábito de preencher a mão a ficha médica dos pacientes, anotando as queixas e histórico de cada um, cujas anotações são mantidas numa caixa de madeira, já surrada pelo tempo, com os nomes em ordem alfabética. Nada de informática ou computador, o máximo que se permitia o Dr. Aristarco, era raramente a utilização de uma velha máquina Remington, em completo desuso. Nem por isso, o conceituado profissional deixava de atender numerosa clientela que diariamente o procurava.

A sua atendente, dona Manuela, uma matrona que o atende, há mais de cinqüenta anos, como auxiliar de enfermagem, lembra-se que o Dr. Aristarco tem ojeriza a político e que naquele dia em que atendeu o deputado, não estava de bom humor e ela presenciou o diálogo entre eles:

- Doutor, sou o deputado federal Manoel Santana, líder do PT, quero que o senhor me atenda hoje, pois tenho que regressar à noite para Brasília. Como o senhor bem sabe, sou um homem público, não posso faltar as minhas obrigações legislativas.

Doutor Aristardo, não gostando da sua petulância e exigências, encarou-o nos olhos e, sem a dar importância ao seu pedido, respondeu secamente:

- Pois bem deputado, diga-me os seus dados pessoais, qual o seu problema de saúde, esqueça as suas atividades de Brasília, e vamos ao que interessa.

O deputado discorreu sobre as suas queixas; disse que sentia dores quando mijava queixava-se também de dores ao defecar.

- Muito bem, disse Aristarco, vamos aos exames, dirigindo-se a sala ao lado preparada por dona Manuela, e ordenou:

- Tire a roupa deputado e deite-se nessa cama, com as pernas abertas, como se fosse realizar um exame ginecológico. Depois, apalpou-o de cima a baixo, e a seguir, calçou uma luva de borracha, passando vaselina no dedo médio.

Aristarco tinha uma mão de gigante, o dedo médio grosso, tinha quase trinta centímetros de comprimento. O deputado continuava a vociferar, contava vantagens dos planos do governo, do sucesso da economia, da reeleição de Lula e coisas tais, chegando a dizer:

- Confio em você, companheiro Aristarco.

Aristarco olhou-o de soslaio e respondeu: - Não me leve a mal, mas quem sou eu para ser seu companheiro deputado? Não sou membro do PT e nem sócio do governo para ser seu companheiro, meu caro.

- Muito bem, doutor, é que somos bem organizados e agora começamos a mamar nas tetas da vaca.

- É deputado, mas os senhores estão com muita sede, atropelando as pessoas e os bons costumes.

- Desculpe-me, doutor, mas o senhor é preconceituoso para com o nosso partido, temos sòmente vinte e cinco anos de idade. Porque o senhor não protesta contra os partidos de oposição, esses hematófagos que vêm chupando o sangue da nação há muitos e muitos anos? - É deputado, preciso lembrar-lhe que o seu partido ganhou o poder com a bandeira da moralização, mas só pensa em mamar, mamar e engordar.

O deputado não gostou das considerações do esculápio, estava arrependido pela consulta, mas aquela altura não podia mais recuar. Nesse instante, já irritado, doutor Aristarco lembrou-se da humilhação e maus tratos que sofreu a sua genitora, com mais de noventa anos, sob sol e chuva, na fila de recadastramento do INSS para provar que ainda estava viva. Por isso, o sangue lhe subiu a cabeça e disse para si: Hoje vou descontar essa conta nesse deputado, e foi o que aconteceu, ao avisá-lo:

- Deputado, relaxe porque vou massagear a sua próstata para verificar o tamanho. Aí, deu-lhe a primeira dedada, até o pé do dedo. O deputado deu um berro: - Aí doutor! Ai, doutor, não agüento. Tire esse dedo, doutor, não suporto tanta dor!

- Aristarco, então, num vai e vem seqüencial, enfiava e retirava o dedo dizendo para si mesmo: - Esta dedada é pelos maus tratos aos aposentados; esta outra pelo salário mínimo; essa pelo desemprego; essa outra pela carga tributária; essa outra pelo MST; (Aristarco teve uma propriedade invadida), outra pelo Valdomiro do Bicho e a última pela compra o Air Bus do presidente. Cansou o dedo de tantas dedadas.

O ilustre deputado do PT recuperou-se, lentamente, depois de tomar um analgésico. Não pagou a consulta, saiu aborrecido e ameaçou o médico dizendo que levaria o caso para conhecimento de todo o país, sob alegação de que tinha viu estrelas. O doutor Aristarco e a enfermeira Manuela, afirmam que o deputado não viu só uma estrela, mas astros e constelações. E Aristarco concluiu sorrindo: - Engraçado Manuela o ilustre deputado traz orgulhoso uma estrelinha no peito, símbolo da sua ostentação e grandeza, mas ele devia era me agradecer porque através do meu dedo mágico ele foi visto pelos céus da Bahia agarrado no rabo do Cometa!

E tome dedadas... (J. Lacoli)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Bilac, cabra safado, devolva o palitó do falecido!

Essa história também vem lá de Ituberá, cidade secular, localizada na região do baixo Sul da Bahia, farta em acontecimentos engraçados, casos variados, hilariantes.
É que a vida naquela terra, privilegiada pelas águas dos seus rios, pelas suas cachoeiras e pela sua vegetação exuberante, a transforma em ambiente acolhedor, cercada de coqueiros, dendezeiros, árvores frutíferas, com suporte fértil na agricultura, com vastos plantios de seringueiras, cacaueiros, craveiros, pimenta do reino, piaçavas e guaranás.
Como se vê, terra com uma agricultura forte e um povo pobre, vivendo na contradição de uma política agrícola nacional inexistente, sem qualquer planejamento e nenhuma garantia.
O caminho para o mar, dos mais bonitos, faz de Ituberá uma princesa pobre de ares aristocráticos, cujo aspecto decadente e sem dinheiro, desdentada e mal vestida, ostenta a face de uma burguesia lisa, pendurada nos frutos podres do cacau, vencida pelas vassouras de bruxas ou hipotecada nos bancos ou nos agiotas de plantão.
Carente na área política, cujas lideranças não fazem por merecer a riqueza potencial de sua agricultura, assim, vive Ituberá a sua magia desfigurada, sob um aroma de cravo e canela, que se respira em cada rua, fazendo com que os nossos pensamentos retornem ao passado, na época áurea do cacau e da literatura do imortal Jorge Amado.
E nesse clima que cresceu a figura de Walter Bilac, jovem egresso do distrito de Pirai do Norte, no passado sob a jurisdição de Ituberá. Pois bem, Bilac de família humilde, veio morar em Ituberá, a sede do município, onde completou com brilho o curso primário e ingressou, como aprendiz, na oficina elétrica do mestre Manoel Simplício.
Simplício era um técnico em eletricidade, especialista em reparos de motores e geradores elétricos, curiosamente, também efetuando reparos em rádios, radiola e nos primeiros aparelhos de televisão em preto e branco que chegavam a Ituberá. Um técnico de conhecimentos avançados para os padrões da época. Oficina das mais organizadas, Simplício prestava serviços para a comunidade local e também para uma indústria incipiente que começava a funcionar na cidade.
O técnico Manoel Simplício, experiente, com mais de 60 anos, veio de Salvador, trazendo mulher e filhos e logo conquistou fama de bom profissional, fazendo de sua casa comercial um celeiro escolar, com a admissão de vários e dedicados aprendizes, entre eles o mais destacado o jovem Walter Bilac, rapaz simpático, de média altura, de boa conversa, pardo, olhos pretos, rosto arredondado e cabelos crespos.
Casado com uma filha de estrangeiro, radicada no Brasil desde os dez anos de idade, Larissa Simplício, era uma mulher alva, de olhos verdes, traços bonitos, cabelos castanhos claros, alta, impressionava pela sua desenvoltura e comunicação. Ajudava o marido nos negócios, estava sempre na linha de frente, pois além de saber enrolar motores de alta precisão, era mais hábil ainda em enrolar o próprio marido, transando com alguns clientes famosos, era o que se comentava a boca pequena por toda a cidade.
Foi assim que nasceu um romance tórrido entre Larissa e Bilac, uma paixão avassaladora entre aquele jovem e a mulher de Simplício, seu mestre em eletricidade, apesar a diferença de idade de Larissa, mais velha que Bilac em quase vinte anos.
Não demorou muito tempo e eis que Manoel Simplício, inocente a tudo que se passava em sua movimentada oficina e também pela idade avançada, morreu repentinamente, deixando tudo para a sua dadivosa viúva que, de maneira aberta e sincera, assumiu publicamente a sua nova relação amorosa e as conseqüências de seu ato, passando a viver maritalmente com o jovem aprendiz Bilac.
O romance transcorreu normalmente por alguns anos, Bilac procurou assumir responsabilidades maiores, naturalmente, chocando-se com as idéias dos filhos menores de Larissa que não o aceitava, sequer como padrasto e muito menos que morasse na residência de seu pai.
Bilac pouco se lixava com tal situação, teve dois filhos dessa relação, mas voltando as origens em Piraí do Norte, reencontrou-se com um velho amor, uma bonita mulher, na flor de sua adolescência, antiga colega de escola, morena de olhos pretos, cabelos lisos ainda uma contra parente de seu genitor. Uma jovem que era um gostoso pitéu. E o amor entre eles foi uma torrente incontrolável, em pouco tempo estavam noivos e casamento marcado, para a surpresa de Larissa que não admitia, de maneira algum, perder o seu grande amor.
Bilac decidiu deixar a casa de Larissa, abandoná-la sem qualquer compromisso, a não ser os gastos escolares com os dois filhos que tivera. Larissa ficou desesperada, pretendia vingar-se de Bilac, estava disposta a matá-lo no dia do casamento em Piraí do Norte, tendo, inclusive, conseguido um revólver calibre 38, oferta de uma amiga solidária de nome Josefina Mendes.
E o desfecho desse encontro foi uma pérola que enfeitaria qualquer conto do fenomenal Nelson Rodrigues. Pois bem, o irrequieto garanhão Bilac, apesar de saber do plano de Larissa o subestimou e no dia do casório, adentrou a capela para as cerimônias do casamento, diga-se de passagem, a igreja completamente lotada, e ele bem vestido, ostentava uma calça preta, camisa branca, gravata colorida e um bonito paletó de casimira importada, que lhe ajustava ao corpo, qual um modelo nobre da melhor grife italiana.
Depois daquele silêncio absoluto, antes da entrada da noiva e do tradicional canto nupcial, ouviu-se um qüiproquó na entrada da igreja, com a turma do deixa - disso procurando dominar à descontrolada Larissa que, de revólver em punho e aos gritos ensurdecedores falava bem alto:

“Bilac! Você quer casar com o paletó do meu marido, seu cabra safado, devolva o paletó do falecido, seu filho da puta”.
Imaginem o transtorno dessa confusão. Bilac indagado pelo cronista desmentiu a versão do paletó, alegando que mandara fazer um terno branco, de linho diagonal, tecido da moda, pelas mãos hábeis do alfaiate Anacleto que, já morto, não confirmou a sua versão.

Mas, convenhamos, aqui pra nós, é ser muito cara de pau! (J.Lacoli)

Papai Noel apanhouna ceia de Natal

Essa é uma historia muito engraçada, mas verdadeira, ocorrida na Bahia, numa determinada cidade do interior. O protagonista chamava-se Theodoro Villanueva, um senhor na casa dos cinqüenta e cinco anos, bem simpático, alto, olhos azuis, cabelos grisalhos, super educado, de fala mansa, verdadeiro gentleman. Caso estudasse no Instituto Rio Branco, com certeza seria um diplomata eficiente.
Theodoro era diretor comercial de uma empresa do pólo petroquímico da Bahia, por força das suas funções, viajava freqüentemente por todo o país e até mesmo ao exterior. Profissional de muitos contatos, sua presença e fidalguia chamavam a atenção de todos, era admirado pelas mulheres que viam nele um galã de novela, despertava sonhos e fantasias amorosas.
Mas Theodoro, apesar das experiências de suas viagens, era tímido, não se aventurava as conquistas amorosas. Casado, há mais de vinte anos, com Karla D’Albuquerque, uma loira, bonita, atlética, de cinqüenta anos, descendente de holandeses, tinha quatro filhos homens, o mais velho com treze anos de idade.
Viviam bem, tinham casa própria na praia do farol da Barra, os domingos e feriados eram de festas com a visita dos amigos e companheiros de trabalho.
Mas Karla era de um gênio miserável, irascível. Tinha um ciúme incontrolável, as viagens de Theodoro eram um martírio, dias de sofrimentos.
Será que Theodoro tinha alguma amante, alguma namorada nessas suas andanças? Era o que lhe atormentava toda vez que ia deixá-lo no Aeroporto Dois de Julho de Salvador.
Os anos foram passando, até que Karla começou a verificar que Theodoro mudara de comportamento. Estava mais alegre, a barba e bigode bem aparados, cabelos impecavelmente penteados.
Passou a andar perfumado e, atualizando-se com o modismo, certo dia Theodoro retornou da viagem com uma pulseira de ouro, bem cara, no pulso do relógio.
Karla, indagou-lhe muito desconfiada: - O que é isso Theodoro? Já viu homem velho usar essas coisas? Não gosto desse modismo. Isso é negócio de fresco!
Theodoro assustou-se e logo respondeu: - Não seja ignorante, Karla, foi um presente de aniversário dos meus colegas paulistas. Todos eles usam correntes e até brincos e isso não lhes tira a sua masculinidade.
- É Theodoro, comigo não tem dessas coisas. Logo você vai me aparecer com piercing nas orelhas e no nariz! Quando sairmos juntos, Theodoro, você vai tirar essas porcarias, isso não é coisa de macho.
Theodoro tinha um medo dos diabos de Karla, procurou obedecer-lhe. Tremia só de pensar se Karla viesse a descobrir que a corrente fora um presente de Chistina, sua belíssima namorada, mineira, em estagio de separação do marido, que ele a conhecera há mais de quatro anos, no barzinho do hotel de Manaus, e por quem estava completamente apaixonado.
Christina era uma amante jovem, fogosa, ao longo desse tempo, o acompanhava nas viagens, o amor entre eles crescia impetuosamente, a ponto de Theodoro pensar em separar-se para viver esse novo idílio amoroso.
Todas as evidências, a cada dia mais transparente, aumentavam o ciúme de Karla que procurava descobrir as razões de tantas transformações de Theodoro.
O tempo foi passando, até que as festas natalinas se aproximaram, quando então, tradicionalmente, o casal realizava a ceia do Natal, reunindo todos os filhos e parentes. Era a ocasião em que não faltava o peru assado com farofa, azeitonas, passas, abacaxis, bem como outras frutas da época.
E Karla, mesmo desconfiada, fazia questão de comprar um grande peru, desses vendidos nos supermercados, daqueles que vem com um apito embutido para avisar quando o assado está no ponto. A mesa bem posta, ornamentada, toalhas de linhos, pratos e talheres nos devidos lugares, sem faltar às bolas coloridas e as árvores natalinas.
Tudo pronto, Theodoro, como fazia todos os anos, vestia-se de Papei Noel, com o saco cheio de presentes para as crianças, a pança avançada e os óculos escondendo o rosto, era a figura tradicional que alegrava o ambiente.
Aproximando-se a meia noite, eis que faltou gelo e Karla foi pessoalmente buscar na vizinhança, enquanto Theodoro, imprudentemente, dirigiu-se ao quarto de casal e, sorrateiramente, telefonou para Christina desmanchando-se em votos de feliz natal, de saudade e outras declarações amorosas.
Karla logo retornou e dando por falta do marido, passou a escutar toda a conversa entre os dois, perdeu a cabeça e gritou, assustando a todos:
- O quê é isso, quê safadeza é essa, Theodoro?
Theodoro descontrolou-se. Desligou abruptamente o telefone, retornou ligeiro para a sala, deparando-se com Karla enfurecida que aos gritos o desmoralizava: - Infiel, safado, traidor, mau caráter, não respeita o nossa casa, os nossos filhos e amigos. Bem que eu desconfiava, pode se retirar daqui, seu cafajeste!
Theodoro amofinou-se, ficou pálido, perdeu a voz, ficou indefeso, como todos os valentes flagrados na ilicitude. E Karla, vociferando que nem uma louca, contida pelos filhos, apanhou o peru sobre a mesa e jogou-o na caixa dos peitos de Theodoro. Farofas, passas, amêndoas, azeitonas e outros ingredientes espalharam-se pela roupa do falso Papai-Noel que procurava desvencilhar-se das agressões de Karla.
Num golpe felino, Karla conseguiu arrancar a barba de Noel, os óculos ficaram partidos, o salão ficou coberto dos brinquedos das crianças que choravam gritando: - Calma mamãe, calma mamãe, e ela, empunhando um garfo tridente que seria utilizado no corte do saboroso peru, corria em volta da mesa tentando atingir o marido traidor.
A turma do deixa disso interferiu milagrosamente, Theodoro foi expulso da casa, o rosto todo ensangüentado pelo sopapo que recebera da esposa. A festa acabou, Theodoro com a roupa vermelha, escondia o sangue das agressões, todo rasgado, parecia um mendigo pelas ruas desertas da cidade, o véu da madruga, em silêncio, o cobria de vergonha daquela tragédia natalina.
Nunca imaginei que um dia o bondoso Papai Noel, símbolo da esperança e alegria das crianças pudesse levar uma boa surra.
A esposa Karla, até hoje, se gaba do que fez, desabafando: - Meu falso Papai Noel bem que merecia a surra que lhe dei. Foi merecido o seu presente de Natal que lhe dei para que não abandonasse a maçã de casa e fosse comer a fruta proibida da sua traição.
E tome-lhe pau! (J.Lacoli)

Castro e as marcas da traição

Essa é uma história muito interessante e ocorreu na cidade do Recife, há mais de quinze anos, por ocasião da visita do Seu Castro, comerciante dinâmico, bem sucedido na cidade de Manaus, ele de origem nordestina, desbravador corajoso que terminou por fazer fortuna naquela região.
Castro era um homem casado, de cor morena, boa pinta, cabelos pretos, rosto oval, olhos claros, bem falante como todo experiente vendedor.
Constantemente vinha ao Recife adquirir açúcar, tecidos, cimento e outras mercadorias para comercializar em Manaus, cujo volume o obrigava a fretar um navio para o transporte.
Experiente nos seus quarenta anos de vida, pai de dois filhos, estudara quando adolescente nos Estados Unidos, tinha vocação nata para o comércio. Com fama de bom trepador, falava-se à boca pequena, que as bonitas empregadas das suas lojas sempre passavam pela a sua cama.
Essas puladas de cerca eram feitas no maior sigilo e cercadas de todas as precauções, porque a sua mulher Beatriz Aziz, jovem bonita e fogosa, filha de árabe, de sangue quente, possuía um ciúme incontrolável e possessivo. E ele sabia do risco que corria e temia pelas suas conseqüências.
Beatriz era tão desconfiada, que controlava os passos do marido como cão farejador. Controlava as camisas, os lenços, as cuecas, meias, roupas, perfumes e sapatos, quer na saída do marido para o trabalho ou na sua chegada em casa e principalmente no retorno de suas viagens. Tinha obsessão por todos os detalhes, inclusive, os corporais. Ciúme miserável, irascível.
Pois bem, ele chegara de avião ao Recife no período da tarde, reuniu-se com o empresário Frederico para a compra de 60.000 sacos de cimento, bem como 40.000 sacos de açúcar.
Na manhã do dia seguinte, concluídos os negócios, dirigiu-se para almoço de confraternização em restaurante famoso da Avenida Boa Viagem. Desejava comer frutos do mar e beber whisky, aproveitando para descansar no período da tarde, pois regressaria a Manaus no vôo que partia do Recife lá pelas dez horas da noite.
No animado almoço, encontrou-se com o velho amigo Sérgio que se juntou aos demais, mantendo a prosa gostosa pela comida e pelas piadas. No meio da conversa, sabendo que Castro gostava de aventuras, sugeriu Sérgio um programa para aquela tarde, com duas belíssimas gatas, sugestão logo aceita por Castro, sem restrições.
Despedindo-se de Frederico, lá se foi o Castro e o Sérgio para o tão esperado encontro com as duas beldades, sempre elogiadas pelo anfitrião. Deixaram o carro num Posto de Gasolina antes de Olinda, encontrando-se com Amália e Paulinha que os esperavam dentro de um automóvel novo.
Depois das apresentações, Sérgio apresentou a namorada Amália e Castro, sem alternativa, ficou com a Paulinha. De fato todas duas eram belas mulheres, tinha por volta de vinte e três anos, corpinho malhado, cabelos bem penteados, cheirosas, olhos sedutores.
Foram para o Motel em Olinda, com vistas para o mar, coqueiros balançando ao vento, paisagem bonita digna das fantasias amorosas, foi o que pensava no momento Castro.
O único inconveniente que o desagradava, e ele detestava, era a fumaça do cigarro de Paulinha, fumante inveterada, que parecia engolir um cigarro após o outro, principalmente depois de tomar um gole de cerveja que, desde que chegara ao quarto do motel, não tirava da boca. Banho tomado para refrescar o corpo, despidos e deitados na cama para início da transa, Castro, apesar de não querer reprimir a parceira, notou que Paulinha não largava o miserável do cigarro que tanto o importunava.
Paulinha então, surpreendendo o companheiro, agachou-se entre as suas pernas, colocou uma lata de cerveja ao lado da cama e junto o cigarro que fumava.
Começou a chupar o amante temporário, mostrando as suas habilidades, em três tempos: uma chupada no cacete de Castro, um gole de cerveja, e uma tragada no cigarro. Era uma operação perigosa, nunca experimentada por Castro, que, por educação, procurava observar o começo dessa transa. Paulinha gabava-se de ser uma maestrina em escala musical: sabia chupar em compasso binário, ternário e quaternário, mas Castro arrepiava-se todo nessa troca de mãos e boca, o pinto ainda meio bambo, até que veio o inusitado. Paulinha perdeu o ritimo da arriscada operação, depois de tragar o cigarro e, retornando o braço, a brasa do cigarro ferrou a coxa de Castro que deu um salto dos diabos, recolhendo aos gritos o cacete amolecido como a rapidez de um raio.
Então, gemendo de dores, gritava Castro enfurecido: - Que porra!, que porra!, Você veio aqui para chupar ou para fumar?
Paulinha assustou-se derrubando a cerveja e o cigarro, procurava penitenciar-se, suplicando desculpas, prometendo chupá-lo sem as alternâncias dos compassos musicais. Castro estava intransigente, aborrecido, procurava passar gelo na queimadura que ardia, não mais queria saber de sexo. Vestiu-se para deixar o motel, estava aguardando o amigo Sérgio.
Paulinha estava murcha, esquecera o cigarro, não mais sabia o que fazer, além das mil desculpas que pedia. Castro, então, mais calmo, lembrou-se das lições do velho mestre de sacanagem Ananias, quando o orientava no passado: evite fantasias sexuais desconhecidas, meu amigo. Se não for o feijão com arroz, nunca vá além do compasso binário, hoje o mais usado, isto é, da chupada para a xoxota. Siga o método tradicional, vá sempre de samba de uma nota só, é infalível e mais seguro.
Castro retornou ao Hotel, arrumou as malas e dirigiu-se à noite para tomar o avião de regresso a Manaus. Estava agora preocupado com a rigorosa vistoria física que teria de submeter-se com a esposa Beatriz.
Como justificar uma queimadura de cigarro, no dorso da sua coxa, principalmente, sem que houvesse danificado a sua calça?
Castro, por fim, encontrou uma desculpa esfarrapada, para justificar o acidente com a desastrada Paulinha e disse ao chegar para Beatriz:
- Meu amor tomei excessivo whisky na companhia do amigo Sérgio e penso que essa queimadura foi com o ferro de engomar do hotel, ele soltou uma língua de fogo. E mais não disse... (J.Lacoli)

O falso Lorde, o Cheque e o Abacaxi

Esse caso ninguém me contou, eu mesmo assisti de corpo presente, num dia de sábado, há mais de vinte anos, quando fui fazer compras num dos supermercados da cidade. Naquela época, antes de ir à praia, era comum entrar no supermercado para comprar refrigerantes, chocolates e lanches para a criançada. Era aquela bagunça, as crianças falando alto, impacientes dentro do carro, esperando o meu retorno.
E, como não poderia deixar de ser, até nos dias atuais, a instituição das filas nos caixas tornou-se uma constante nacional. É fila para tudo: Fila sofrida dos aposentados, durante todo o mês, a chamada fila do INPS; filas de ônibus, filas de cambistas, filas dos cinemas, dos teatros, filas dos aeroportos, dos metrôs, fila dos hospitais, filas dos comprimentos, filas dos vestibulares, filas das padarias, dos açougues, filas de carregamentos, filas de tráfego congestionados, filas de bancos e de compras de ingressos. São filas para todos os gostos e desgostos. Haja filas e paciência para enfrentá-las. O chato de tudo isso é que, quando você vai envelhecendo, ao invés de se acostumar, você passa a ter ojeriza, evitando a qualquer custo ter que enfrentá-las.
Pois bem, foi isso que me ocorreu naquela manhã ensolarada. O supermercado estava completamente lotado e, para desafogar as filas, o estabelecimento havia posto a funcionar três caixas para pequenas compras, de maneira que os clientes pudessem ser rapidamente atendidos, sem espera nas filas. Naquela manhã, embarquei numa dessas filas que, de tão extensa, quase atravessava o grande salão do supermercado. Na minha frente, um cidadão de aproximadamente sessenta anos, alto, bem vestido, cabelos grisalhos, bigode bem aparado, parecia um barão falido, pouco acostumado às intermináveis filas onde estávamos. Ele estava bem calmo, tinha aspecto de nobreza, como aparentava roupa de linho, bem ajustada ao corpo, e os sapatos pretos reluzentes. Segurava nas mãos um abacaxi maduro, bem cheiroso.
Ora, como se sabe, a Paraíba era a terra do abacaxi, exportadora de mais de seiscentas mil caixas por ano. E ali estava à minha frente, aquele lorde com o precioso fruto em suas mãos. Imaginei logo que fosse algum desejo, ou dele, cujo aspecto era estanho ao ambiente ou, quem sabe, um desejo da mulher ou da filha em fase de gestação. Era um caso a se pensar, mas isso não era o objetivo desta crônica. O fato era que a longa fila não sai do lugar, não andava, a turma detrás estava inquieta, falava, gesticulava, reclamava da demora no atendimento, parecia um castigo, enquanto as outras filas das grandes compras fluíam com rapidez.
Bem, como estávamos ali há muito tempo, passar ou pular de um fila para outra era falta de educação. O melhor mesmo era esperar, ainda mais pelo fato que o austero cidadão estava a três corpos para ser atendido. Pensei então que, em se tratando da compra de um só abacaxi, o atendimento seria rápida, ainda mais que o preço de tão desejado fruto era de apenas, a custo de hoje, uma moeda de R$ 0,25 centavos. Bem, fiquei momentaneamente aliviado quando o cliente da vez era o lorde do abacaxi e surpreso ao mesmo tempo quando ele indagou da atendente caixa:
- Qual o preço do abacaxi?
- Vinte e cinco centavos, respondeu ela educadamente, acionando a seguir manivela da caixa registradora.
Aí aconteceu o inusitado: o nobre cidadão, com uma pose de barão aposentado, meteu a mão no bolso da jaqueta, sacou de um talão de cheques da melhor procedência, desses cheques especiais que todos os dias vemos nos anúncios das TVs, àquela época deferência bancária somente aos ricos da cidade.
A seguir, pediu emprestada a caneta barata da humilde atendente, apoiou-se entre os corredores e passou a preencher o cheque especial, numa atitude digna de um imbecil bem trajado.
Bem, o vexame foi grande e engraçado. No lugar das reclamações o que se ouvia nas filas era uma tremenda gargalhada, inclusive a minha, pois jamais imaginava encontrar um idiota, com pose britânica, pagar a compra de um abacaxi com cheque especial de vinte e cinco centavos!
Não pensava que depois de tanta demora um abacaxi pudesse nos causar tantos risos e transformar os nossos aborrecimentos em alegrias.

Haja abacaxi! (J.Lacoli)